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Está em curso no Brasil uma silenciosa guerra civil entre a burocracia corporativista e o ímpeto reformista do governo. A despeito de o tema gerar ampla repercussão na sociedade, é considerado de menor importância para nossa mídia, cuja atenção há muito foi capturada por uma visão equivocada do que considera a burocracia: a guardiã do santo graal da cidadania. Além do mais, a burocracia vaza, gentilmente, informações sigilosas que alimentam a fantasia do jornalismo investigativo brasileiro. Daí que proteger as fontes sempre é um bom negócio.

A guerra civil em curso representa para a cidadania a luta por melhores serviços públicos. Que o cidadão não seja maltratado quando busca o Estado. Para que não existam privilégios injustificados no serviço público. As aposentadorias sejam justas para todos os trabalhadores. As licenças burocráticas sejam expedidas a tempo. Para que os investimentos em infraestrutura não fiquem anos à espera de licenças ambientais. Pagar impostos não seja um tormento que consome quase 2 mil horas por ano do contribuinte. E, sobretudo, para que o Estado não consuma recursos com o custeio de uma máquina gigantesca e inoperante. Essa é a guerra civil que está em curso no País.

Nossa guerra civil se desenvolve em várias frentes. Por exemplo: a Justiça do Trabalho se recusa a reconhecer a Reforma Trabalhista; a Receita demora a desburocratizar o sistema tributário; procuradores, reitores e delegados lutam pelo privilégio injustificado das listas tríplices para cargos que deveriam ser de livre nomeação do presidente da República; os auditores fiscais insistem em descaracterizar a necessidade da Reforma da Previdência para esconder a manutenção de privilégios pagos pelo erário; juízes e promotores não abrem mão de regalias, como vencimentos que contornam o teto constitucional; e empresas querem manter desonerações fiscais e medidas protecionistas que penalizam o consumidor.

A guerra civil terá desdobramentos. A Receita não deve fazer política tributária, assim como o Itamaraty não deve fazer política externa. Nem tampouco o Ministério da Saúde deve fazer política de saúde pública. Quem deve definir as linhas de ação e as políticas públicas do País é o Congresso. A trincheira final contra o corporativismo reside no legislativo federal e é para lá que devem se voltar os esforços da cidadania. Lutar onde as corporações predominam há tempos. Aos poucos, a situação está mudando para melhor. A aprovação da Reforma Trabalhista, da Lei da Terceirização e da Medida Provisória da Liberdade Econômica são batalhas ganhas em uma guerra que ainda está longe de terminar.

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.