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Neste fim de semana, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou na cúpula do G-7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia, que deve voltar ao grupo) que trabalhará para mobilizar a comunidade internacional na luta contra as queimadas e em favor do reflorestamento. Por outro lado, o G7 decidiu que não haverá declarações globais de seus líderes sobre o tema. O Brasil virou o vilão do mundo nas últimas semanas em decorrência de questões comerciais, ambientais, midiáticas e políticas e, pontualmente, pelo aumento das queimadas na Amazônia.

Com aspectos pontuais e estruturais, a crise apresenta matizes e não pode ser explicada com respostas simples. A seguir, uma análise desses aspectos:

  1. A questão ambiental está sendo crescentemente usada em disputas comerciais. Canadá e Austrália, por exemplo, acompanham o lento licenciamento ambiental no Brasil com satisfação, o que favorece a atividade mineradora em seus países. França e demais países europeus veem a aproximação do Mercosul com a Comunidade Europeia como um problema de competição no agronegócio. Enfraquecer o principal país do Mercosul é parte de uma estratégia onde a questão ambiental se apresenta como pretexto ideal.
  2. Países da Escandinávia, submetidos ao controle do politicamente correto, acompanham a questão ambiental no mundo como se esta fosse um assunto de política interna. E, pelas ligações com o mundo “politicamente correto” das ONGs. Posicionar-se contra o Brasil na questão ambiental interessa, pois entra no cálculo político interno. Em 2017, o então presidente Michel Temer passou pelo vexame de ser avisado do corte dos fundos noruegueses para o Fundo Amazônia em visita a Oslo. A diplomacia brasileira, que sabia do corte, nada fez para evitar o constrangimento.
  3. O cálculo político interno também entra no posicionamento francês. Pouco popular, Emmanuel Macron precisa de um inimigo externo para atacar e de uma justificativa ambiental para boicotar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia. O mundo intelectual francês, que odeia Bolsonaro, vê na questão ambiental um calcanhar de Aquiles para atingir a política de direita.
  4. A mídia nacional e internacional não vê com bons olhos o governo Bolsonaro, que, além de provocar polêmicas, carece de uma estratégia de comunicação interna e externa. Toda e qualquer declaração oficial do Brasil é vista, interna e externamente, com desconfiança. O aparato de comunicação governamental poderia atuar para compensar o embate e colocar as narrativas oficiais em melhor plano. O governo, independentemente da agressividade da mídia, deve contar a sua história.
  5. O Brasil carece de uma contra-narrativa para neutralizar os ataques e de uma narrativa sobre as iniciativas positivas implementadas no campo ambiental. E, sobretudo, de serviços de inteligência para captar e processar informações. O Brasil, entre as maiores nações do planeta, é a única que não conta com serviços de inteligência adequados para enfrentar os desafios políticos, econômicos, ambientais, diplomáticos e geopolíticos advindos de sua dimensão continental. Sem uma estratégia definida, alimentada por informações relevantes, o país fica à mercê das respostas de reação, que podem não ser efetivas.
  6. A questão ambiental no país toca em um nervo político sensível, que é a tradicional aliança entre ONGs, burocracia ambiental e setores de esquerda. Tal relação tem sido questionada e desafiada pelo governo Bolsonaro. À medida que as queimadas se intensificam, a guerra midiática contra o governo também se intensifica. O governo, até hoje, a parte de denunciar, nunca conseguiu mostrar as entranhas dessa relação que atua para dificultar licenças ambientais, expandir terras indígenas e de quilombolas além do razoável.
  7. A diplomacia brasileira há muito é inoperante para defender a imagem do país e não conta com mecanismos de pronta-resposta. Dividido entre o pensamento esquerdista-terceiro-mundista dos tempos de Celso Amorim, o corporativismo de elite em uma casa de elite e a chegada de um ministro de Relações Exteriores que parece pálido em meio à crise ambiental, o Itamaraty, que deveria dar a resposta inicial, está desarticulado e sem comando. E, mais uma vez, como no episódio de Bill de Blasio (prefeito de Nova York/Homem do Ano), deixa Bolsonaro exposto.
  8. O setor privado exportador brasileiro, que pode vir a ser fortemente prejudicado pela crise ambiental, não possui mecanismos ordenados de reação. O Brasil não tem sistema de advocacy nem privado nem público no exterior. Porém, sem a ação do setor privado, ficaremos expostos a retaliações e boicotes na esfera internacional.

No curto prazo, apenas a redução das queimadas na Amazônia reduzirá a temperatura da mídia internacional. Qualquer outra iniciativa, mesmo na linha de combate ao incêndio, será vista com desconfiança por conta do imenso saldo negativo e do preconceito da mídia contra o governo brasileiro.

Apenas a ocorrência de retaliações e boicotes concretos e específicos deverão motivar uma reação mais dura do Brasil. Assim, mesmo com o desafio interno, a prioridade será a de combater as chamas e as queimadas como forma de sair do foco internacional. E caso o G-7 decida censurar o Brasil de forma objetiva, a crise poderá deflagrar iniciativas que tensionarão ainda mais o ambiente. Não é o cenário que consideramos o mais provável.

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