Pedro França/Agência Senado
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Caso existissem exames psicotécnicos para políticos, muitos seriam reprovados. A quantidade de líderes alucinados é assustadora. São fáceis de identificar. Os piores são os que deliram na sobriedade. São contidos. Transformam suas ideias tortas em considerações respeitáveis. Eliminam dúvidas com aparente franqueza e sinceridade. Mostram mansidão, todavia, atuam em profundidade. Manipulam os eleitores, a mídia e os companheiros. Não têm escrúpulos. Mentem e acreditam que estão imbuídos da verdade. São implacáveis.

Outros loucos da política são maiores que a vida. São grandiloquentes, expansivos e cheios de si, como Mussolini, que parecia mais talhado para açougueiro ou dono de cantina. Transitando por ideais políticos ao sabor da própria loucura, foi da esquerda à direita. Já Stalin saiu do banditismo e chegou ao genocídio. O albanês Enver Hoxha, herói do PCdoB, gastou milhões que seu país não tinha para construir milhares de casamatas individuais para soldados que o defenderiam de invasões só imaginadas.

Outros são menos alegóricos, mas igualmente insanos. Muitos se destacam pela frieza. Após conhecer Trotsky, Freud disse que suas pupilas brilhavam como as de um assassino ou religioso fanático. Acertou em ambos os diagnósticos. Trotsky, Lênin e Stalin formaram um dos trios mais sanguinários da humanidade. Sem loucura, jamais chegariam ao poder.

O grau de insanidade pode assegurar ou não a sobrevivência, pois quando loucos demais, terminam vítimas de suas neuroses e paranoias. Os que sabem maneirar vão passando por sãos e se mantêm. Sabem usar a loucura para se alavancar e criar oportunidades para fazer o acaso trabalhar em seu favor. Muitas candidaturas de sucesso foram manifestações de grande delírio antes de resultar em vitória.

No Brasil, é nos períodos pré-eleitorais que surgem os malucos. Cercam os partidos tentando convencer que são detentores de elevado potencial. Com as pupilas dilatadas de Trotsky, afirmam que obterão votos e recursos. Chegam a ser agressivos com quem duvida. Outro tipo é o obcecado. É o estilo de Eduardo Suplicy, que só fala em renda mínima. Apesar de chatos, estes não incomodam muito, servindo para compor paisagem.

Hoje parece que os loucos estão em todos os plenários e gabinetes. Alguns são napoleões de hospício, outros, ditadores de opereta. Sempre foi assim, mas não se enganem. Além deles existem os que de louco nada possuem. Apenas surfam nas ondas de nossa debilidade cidadã e analítica. A política é um delírio.

Políticos sempre tentam se aproveitar da indignação e credulidade coletivas. Uns oportunistas, outros, doidos varridos. Os piores aparentam iluminada sanidade.

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.