Alan Santos/PR/Flickr
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Após anos de negociação, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) foi finalmente assinado – final de junho passado – e agora paira a expectativa acerca de sua implementação e dos impactos que estão por vir. Ressalte-se que alguns produtos gozarão de isenção de tarifas na totalidade do volume comercializado entre os dois blocos; já outros, terão cotas preferenciais fixas. O que representa um enorme mercado responsável por aproximadamente 800 milhões de pessoas.

Estima-se também que ocorra uma reforma no próprio Mercosul com o objetivo de facilitar as trocas comerciais intrabloco, o que incrementaria sobremaneira a expectativa de uma maior abertura comercial. No entanto, é importante frisar que o acordo consiste em uma via de mão dupla, pois não só os produtos do Mercosul terão redução de tarifas com entrada facilitada para a UE, mas também os produtos do bloco europeu. Como é o caso das frutas e hortaliças in natura e industrializados.

Some-se a isso o fato de que é preciso cuidado para não se retirar a competitividade do mercado brasileiro e de seus produtores, empresários, comerciantes e prestadores de serviços. Isso porque a nova cadeia de negócios fará com que muitos produtos importados fiquem mais baratos do que produtos produzidos em solo nacional. E com a queda de preços, resta imprescindível o suporte aos empresários brasileiros no sentido de que os insumos, peças e outras matérias-primas também sofram redução de valores.

É imperioso observar ainda que o atual cenário econômico e de geração de emprego é muito benéfico aos pequenos, que certamente irão crescer (com o aumento da saída de suas produções rurais ou artesanais) e as grandes, que terão condições estruturais de comprar esses produtos para enviar aos europeus.

O agronegócio deve ser catapultado graças ao acordo, o que pode ser muito vantajoso ao Brasil porque praticamente 99% das exportações nacionais terão as tarifas zeradas ou parcialmente reduzidas. E no que diz respeito à fruticultura brasileira, o acordo ganha destaque, pois os principais concorrentes do Brasil nos envios à UE (a exemplo de Peru, Chile e México) já são isentos de tarifas para exportação de frutas. Desse modo, será elevada a competitividade brasileira nos envios ao bloco, uma vez que cerca de 60% das frutas exportadas pelo Brasil são enviadas à União Europeia, hoje com impostos que variam entre 4% e 14% – conforme dados da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas).

Merecem destaque também outros bens de consumo que o acordo prevê diminuição de custos de importações para países europeus: café (Brasil poderá abocanhar grandes fatias de mercado produtores de outras nações); suco de laranja (potencialização de produção de laranjas por agricultores pequenos/rurais); peixes (compras prioritárias dos europeus, que gostam muito de peixes brasileiros); óleos vegetais (sobretudo da região amazônica); açúcar (outro bem de consumo bastante desejado, porém, assim como os peixes, é preciso cautela para não faltar abastecimento para os estados brasileiros); etanol (importante alternativa para a baixa de consumo de combustíveis no país); carnes (Brasil que já é um dos maiores vendedores de carnes do mundo, poderá aumentar essa cadeia produtiva); ovos (incremento na criação de galinhas, que, consequentemente aumenta a venda de carne, que, por sua vez, incrementa a compra de rações, que aumenta a estrutura como um todo); mel e arroz.

Quanto à indústria e comércio, máquinas aparecem entre os produtos que os brasileiros poderão comprar por preços menores e, portanto, muitas indústrias serão capazes de otimizar os seus processos produtivos. Por outro lado, vale lembrar que o mercado brasileiro conta também com produtores de máquinas, o que pode gerar, salvo a adoção de medidas adequadas, o declínio das empresas brasileiras nesse segmento. No que diz respeito a insumos e materiais, ainda não se sabe ao certo se será possível ao Brasil comprar por valores menores. O mesmo vale para os produtos químicos e farmacêuticos

Há também uma forte tendência de crescimento e com muitos preços reduzindo para o consumidor final com relação a: vestuário, calçados e tecidos; veículos de médio e alto luxo; vinhos; chocolates; doces; e queijo.

Já os serviços (quer de manutenção de máquinas, quer de escritórios de contabilidade) devem andar bem, basta que indústria e comércio prosperem.

CNI

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), haverá um crescimento no curto prazo. Contudo, a entidade alerta que o acordo, que ainda precisa ser aprovado pelos parlamentos, estabelece a redução de tarifas de importação de produtos europeus ao longo dos anos. Desse modo, caso a indústria brasileira não esteja apta a competir com os importados e tampouco abrir novos mercados, a situação do país pode ficar fragilizada, gerando uma dependência econômica ainda maior de matérias-primas como minérios e produtos agrícolas. Mesmo assim a CNI acredita que os setores têxtil, de equipamentos de transporte, de produtos de metais e de madeira devem crescer com o acordo.

Desafio

Resta saber se o Brasil terá capacidade produtiva para suportar todo esse crescimento oriundo do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. A indústria brasileira se vê, portanto, diante de um desafio: potencial evolução com crescimento e competitividade ou drástica diminuição e perda de importância e operacionalidade na economia nacional, o que resultaria em consequências graves para o país.