Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Os caminhoneiros têm o direito de ficar em casa em vez de trabalhar. Da mesma forma, os caminhoneiros têm o direito de trabalhar em vez de ficar em casa. Permitir o primeiro e bloquear o segundo é selvageria urbana.

Itamar Garcez *

Há cerca de um ano, o Brasil é refém dos caminhoneiros. Mais do que a ameaça de greve, um direito, a categoria vale-se da chantagem para ameaçar o poder público e os brasileiros.

Ninguém é obrigado a se tornar motorista de caminhão. E, caso adote a boleia como profissão, não é obrigado a trabalhar.

 

Sem PIB, sem cargas

Os caminhoneiros derrapam no convívio civilizado e democrático quando atravessam a carroceria na estrada e impedem o Brasil de funcionar. Fazem isto de forma dolosa quando barram outrem de transportar mercadorias, já que o ir e vir é um direito constitucional.

De acordo com o Ministério da Fazenda, à época do Governo Temer, o prejuízo do movimento paredista de 2018 foi de R$ 16 bilhões. Foi tamanho o impacto que o PIB brasileiro, já esquálido, sofreu avarias.

A queda da economia, aliás, exibe a forma desinteligente da paralisação. Com economia fraca evidentemente os profissionais do volante terão menos o que transportar.

O que eles precisam é comércio a todo vapor, como nos EUA. Lá, há escassez de caminhoneiros que, evidentemente, cobram mais pelo frete. Não se tem notícia de que os comerciantes tenham feito lockout contra a categoria.

Além disso, se param, incentivam outras formas de transporte de cargas. Na economia, busca-se o tempo todo o menor custo. Ganha quem entregar mais, mais rápido e por menos.

Livre concorrência

Ainda assim, o direito à desinteligência também deve ser respeitado. Desde que a truculência grevista não produza desastres, como a morte de 70 milhões de aves, falta de insumos em hospitais e descarte de toneladas de alimentos perecíveis.

O Direito já reconheceu que há greves & greves. Caso luthiers resolvam paralisar suas atividades haverá um prejuízo para os profissionais das cordas. O Brasil, porém, seguirá em frente, embora menos sonoro.

Não é o caso dos responsáveis pelo abastecimento de energia elétrica ou água. Ou de motoristas de transporte coletivo. Ou de trabalhadores da saúde.

Há limites para estas categorias. Entre estes limites o de deixar trabalhar quem quiser trabalhar, caso contrário ferem o direito de locomoção alheio.

Se são incapazes de mobilizar toda ou a maior parte da categoria, problema das lideranças caminhoneiras. Convoquem eventos sindicais para uma DR coletiva.

Querem os caminhoneiros uma tabela que garanta um preço mínimo para suas entregas. Que tal se, doravante, todas as categorias resolverem reivindicar uma tabela de preços para seus serviços? Se uns podem, não é justo que todos possam?

A livre concorrência é igualmente um princípio constitucional. É assim que o mundo tem se movido.

O motor a explosão não foi inventado por cientistas altruístas. Foi inventado para gerar riqueza para seus idealizadores.

A não ser que queiramos retornar ao sistema de economia centralizada, adotada pelos generais-ditadores e pelo PT – e que não funcionou. Vivemos no sistema de livre comércio. Sistema que, diante dos fracassos socializantes, é o que funcionou melhor até aqui.

A vida de caminhoneiro não é fácil. Enfrentar estradas malconservadas e perigosas é arriscado.

É justo que alguém considere que os riscos e os prejuízos pecuniários não compensem as longas jornadas. Não é justo que os que queiram agir desta forma, paralisando as entregas de mercadorias, forcem os demais a desligar os motores.

Era dos drones

Enquanto o Judiciário não assume seu papel de fazer com que a Constituição seja respeitada, cabe ao Executivo adotar medidas que reduzam a dependência extrema que tem o País dos profissionais das rodovias.

Excluídos grãos e minérios, o transporte rodoviário é responsável por 82% da movimentação de cargas no Brasil. Certamente não é por falta de terra para construir rodovias ou de águas navegáveis para implantar hidrovias.

Incentivar o transporte via asfalto, e a consequente dependência deste modal, foi uma opção de políticas públicas desde JK. Na era dos drones, hora de diversificar os meios de transportes.

Bolsonaro tem mostrado fixação por atacar ambientalistas e pederastas, além de tentar se diferenciar dos antecessores. Se é isso que pretende, pode começar incentivando o transporte ferroviário e hidroviário.

Com isto, reduziria a dependência brasileira de uma parte da categoria que ainda não aprendeu a respeitar os demais brasileiros. Civilidade, aparentemente, é produto que não pode ser encomendado. Precisa ser adquirida.

 

* Itamar Garcez é jornalista