Valter Campanato/Agência Brasil
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Parafraseando Gilberto Gil, é chegada a hora de crescer e plantar. Crescer para gerar empregos. Plantar a paz para reduzir a violência. Daqui em diante, não vai dar mais para o capitão-mor culpar os parlamentares, muito menos Lula

Itamar Garcez *

A aprovação da reforma da previdência era o melhor presente que o presidente Jair Bolsonaro poderia esperar do Congresso Nacional neste começo de mandato. Sem ele, seu governo teria desandado logo no primeiro ano.

Recebeu-o sem fazer muito esforço. Os parlamentares aprovaram a Nova Previdência por pressão da cidadania organizada e porque sabem que o Brasil patinaria mais quatro anos sem a reforma nas aposentadorias.

Sim, os parlamentares são permeáveis à vontade popular. E é muito bom que seja assim.

Sim, os parlamentares assumem posições responsáveis. O que é igualmente saudável.

A despeito do cacoete de jornalistas e cientistas sociais, para quem nada de bom sai do Congresso Nacional, a grande maioria dos avanços legislativos foram gestados na sociedade organizada, mas brotaram nos Salões Verde e Azul. Simbiose pouco comum no Executivo e inexistente no Judiciário ou no Ministério Público, o quarto poder.

Ainda faltam 406 votos

De qualquer jeito, faltam ainda três etapas para consolidar a indesejada, mas necessária reforma. Uma votação na Câmara e duas no Senado. No mínimo, mais 406 votos “sim” nos dois plenários do Congresso Nacional. Jornada longa e árdua.

Supondo-se que deputados e senadores completem a missão – o que dificilmente acontecerá antes de outubro -, a bola voltará aos pés do capitão-mor. Daí, não vai dar mais para o presidente continuar culpando os outros por sua inação.

Até aqui, Bolsonaro brincou de agente de trânsito, fiscal ambiental às avessas, garoto-propaganda da indústria bélica e censor dos costumes alheios. Quer mudar regras que protegem motoristas e passageiros, desfazer leis conservacionistas, armar os cidadãos e fustigar pederastas.

Parafraseando Gilberto Gil, é chegada a hora de crescer e plantar. Crescer para gerar empregos. Plantar a paz para reduzir a violência.

Mais emprego & menos violência

Assim como há uma parcela de fiéis enclausurada na seita lulista, há os sequazes autoconfinados nas hostes bolsonaristas. Uns e outros aplaudem e perdoam tudo em seus demiurgos, inclusive os malfeitos.

A grande maioria da cidadania brasiliana, porém, espera que o capitão-mor pare de bancar o papai adulador e assuma a Presidência da República. Entre suas promessas, duas são incontornáveis: criar empregos e reduzir a violência.

Ambas, tarefas difíceis. De acordo com o IBGE, o Brasil tem 13 milhões de desempregados, 7 milhões de subocupados, 5 milhões de desalentados & 3,5 milhões fora da força de trabalho potencial.

Este imenso contingente, de 28,5 milhões de pessoas, o IBGE chama de subutilizados. Em percentagem, 25% da força de trabalho.

Poucas situações são mais danosas à autoestima, à unidade familiar, ao crescimento econômico, ao desenvolvimento social, à sobrevivência, enfim, à prosperidade de uma nação do que o desemprego. É sobre este charco destrutivo que o Brasil afunda desde os tempos em que o PT resolveu reinventar a economia.

A responsabilidade do PT, e as siglas partidárias dependentes que o orbitam, é conhecida. Esgota-se, no entanto, rapidamente o tempo de que Bolsonaro dispõe para jogar nas costas da oposição a culpa pelo desemprego.

Em grau equivalente de importância, a insegurança campeia Brasil adentro da mesma forma deletéria dos tempos que a chamada esquerda apregoava os direitos humanos para nada fazer contra a barbárie dos criminosos. Até aqui, o capitão-mor também nada fez para reduzir o insuportável desnível de insegurança brasiliano.

Continua tão inseguro como dantes sair às ruas, passear de mãos dadas ou deixar crianças brincando nas calçadas e nos parques. Milhares de assassinatos, milhares de estupros, infinidade de roubos e assaltos, crime organizado e milícias desenhando um estado paralelo e desdenhando do poder público.

De novo, dissipa-se com rapidez o discurso de que a violência é consequência exclusiva da leniência da chamada esquerda com criminosos. Bolsonaro não sustentará sua fama de implacável com a bandidagem com o gesto que o notabilizou ao empunhar uma arma fictícia com os dedos em riste e um sorriso sarcástico.

É chegada a hora…

Caso o Parlamento, de fato, entregue a economia bilionária promovida com a reforma das aposentadorias, os refletores da ribalta serão reposicionados na direção do presidente Bolsonaro. Não adiantará compartilhar o palco com os coadjuvantes Paulo Guedes e Sergio Moro, animadores da corte com brilho bruxuleante.

Foi Bolsonaro o destinatário de 57,7 milhões de votos em outubro de 2018. Não se tratou de simpatia do eleitor, mas de desejo por mais emprego e menos violência.

Culpar o opositor encarcerado em Curitiba tornar-se-á cada vez mais risível. Ou melhor, lacrimoso.

Afinal, sem renda e com bandidos nos calcanhares só restará ao eleitor chorar, protestar e se preparar para trocar novamente o mandatário em 2022. Enfadonha, mas excruciante sina brasileira.

Neste interregno, a espera na interminável fila do desemprego será longa. O medo latente de perder a renda ou a vida na primeira esquina, perturbadoramente rotineira.

 

* Itamar Garcez é jornalista