Sérgio Lima
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Os ataques de Carlos Bolsonaro a uma autoridade próxima do presidente Jair Bolsonaro podem parecer atitude de um filho rebelde e boquirroto. Até aqui, no entanto, os alvos do filho entraram na linha de tiro do pai. Ou vice-versa, o que é bem mais provável

Toda a vez que Carlos Bolsonaro ataca uma autoridade do círculo íntimo presidencial, o capitão-mor dá um jeito de mostrar que a vítima do filho guerrilheiro está prestigiada. A manifestação do presidente Jair Bolsonaro pode ser mais ou menos eloquente.

O resultado, porém, acaba sendo o mesmo. Como nas lutas de boxe, o bombardeado sofre vários golpes do Zero Dois até que Papai Bolsonaro parte para o nocaute, com o contendor já desnorteado e fragilizado.

O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, até há poucos dias um dos homens de confiança do capitão-mor, já levou dois murros. Primeiro, foi acusado de negligenciar a segurança presidencial quando um sargento foi flagrado com 39kg de cocaína num avião da FAB.

Nesta quinta, 4, voltou a esmurrar um dos principais assessores do presidente. Ao comentar o suicídio de um empresário em Sergipe na frente do governador do Estado, Belivaldo Chagas, e do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, desferiu outro murro.

“Mais uma falha de segurança. Seria bom a segurança do Presidente ficar mais atenta”, escreveu no Twitter. Nas postagens, o rebento mostrou-se “extremamente preocupado com a segurança do Presidente da República e seu pai”.

Trata-se, obviamente, de uma suspeita muito grave. O Brasil está conturbado demais para ter um presidente alvejado no exercício do mandato.

Neste, como em casos anteriores, a mídia reproduz os gestos do presidente da República. De acordo com essas reportagens, Bolsonaro Pai discordaria de Bolsonaro Filho, demonstrando prestigiar o auxiliar atacado, como se o filho fosse incontrolável.

O dono da voz

Zero Dois, assim como os irmãos, Zero Um e Zero Três, eram desconhecidos antes do pai derrotar o PT de Lula. O perfil dos três, suas ideias e seus rompantes espelham a cara do pai.

Jair Bolsonaro, na presidência, não surpreende. Está fazendo o que sempre pregou. Defende com vigor a pauta de costumes e age de forma desconexa naqueles temas que mais contam na vida dos cidadãos – economia, saúde e educação.

Mesmo na segurança pública, área que se supõe especialista, nada mudou. O Brasil continua tão inseguro e violento como nos tempos do PT.

O capitão-mor, porém, demonstra que gosta de mandar. E que não aprecia quem o conteste.

Acreditar que seus filhos tenham autonomia e disparem suas artilharias sem o consentimento paterno é crer que os cubanos vivem numa democracia. A carabina com a qual o Zero Dois mirou o General Heleno provavelmente já estava carregada com a munição fornecida pelo pai.

Como na ventriloquia, o dono da voz é quem segura o boneco. Portanto, General Heleno, sinta-se alvejado pelo presidente.

 

* Itamar Garcez é jornalista