José Cruz/Agência Brasil

As manifestações, de modo geral, foram expressivas e revelam poder de mobilização popular relevante. O governo correu risco, mas sai fortalecido. Ao todo, houve atos em 122 cidades de 21 estados e também no Distrito Federal. As adesões mais significativas aconteceram no Rio de Janeiro, na praia de Copacabana, e em São Paulo, na avenida Paulista.

O foco foi a defesa do pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, e da Reforma da Previdência, além de críticas ao centrão, entre outros itens. A amplitude dos atos foi um pouco menor que a registrada nos protestos dos estudantes, no último dia 15, contra os cortes no orçamento da Educação. Segundo levantamento realizado pelo G1, naquela oportunidade os atos ocorreram em 146 cidades mais o Distrito Federal.

A base social do presidente mostrou força, mesmo tendo um tamanho inferior e sem contar com a adesão do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Vem pra Rua, além da oposição do deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) e da deputada estadual de São Paulo Janaina Paschoal (PSL), ex-protagonistas de manifestações anteriores em favor de Bolsonaro.

Os atos deste domingo não devem, porém, ter potencial para intimidar o Congresso nem acelerar os trâmites da Reforma da Previdência, do pacote anticrime ou de medidas provisórias diversas. O item mais urgente da agenda do país neste momento, a Reforma da Previdência, continua dependendo mais da capacidade de articulação do governo no Congresso do que da presença da população na rua.

No entanto, houve sinais importantes nos atos desse domingo. Ao participar de um culto religioso na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Bolsonaro afirmou que “as manifestações são um recado aos que teimam com velhas práticas e que não permitem que o povo se liberte”. Ele compartilhou em suas redes sociais os vídeos das manifestações em favor do governo. Seu posicionamento sugere que, apesar das críticas, ele tende a dobrar sua aposta no que vem sendo definido em Brasília como forma de “não relacionamento” com o Congresso.

Ao não operar nos moldes do presidencialismo de coalizão, Bolsonaro vive numa espécie de campanha eleitoral permanente, também chamada de “presidencialismo plebiscitário”, pois precisa manter sua base social mobilizada para pressionar os parlamentares. Essa forma de relacionamento com o Congresso não é exclusiva do Brasil. Dada a crise de representação nas democracias de todo o mundo, vários governantes têm lançado mão de tal estratégia.

O problema é que, ao não operar sob as bases do presidencialismo de coalizão, Bolsonaro passa a depender da construção de bases esporádicas em cada votação, que se desfazem rapidamente e levam o governo a ter que negociar novas bases na votação seguinte. Com isso o custo da governabilidade se eleva. Num cenário em que Bolsonaro perde popularidade, a manutenção desse modus operandi pode provocar crises constantes com o Parlamento, fazendo com que o Planalto tenha de recorrer às redes sociais o tempo todo como forma de mobilização.