O Brasil caminha de forma irreversível para uma eleição cujo tema não será a Reforma da Previdência, nem a volta dos investimentos em infraestrutura nem a manutenção da inflação sob controle. Será: “Com ou sem Lula”, eis o debate que já percorre o país.

E já se sabe que, no caso de uma condenação do ex-presidente em segunda instância, só o Judiciário dará resposta à pergunta “com ou sem Lula?”. É dramático para um país com a desarrumação política que o nosso tem, ir às urnas discutindo se, na hora de votar a cédula eletrônica será “com ou sem Lula?”

O jogo sobre a mesa no momento é um imbróglio e tanto:

  1. se Lula for condenado em segunda instância numa votação com resultado sem unanimidade, ele poderá recorrer para não permitir sua inclusão como ficha suja. Decisão do TSE devolveu a um prefeito a elegibilidade num caso parecido;
  2. mesmo que o ex-presidente seja condenado por unanimidade e tenha sido preso, ele também pode recorrer para não virar ficha seja, como manda a lei nesses casos. Isso aconteceria na hipótese de o Supremo não mudar seu entendimento de que pessoa nessa condição vai para a prisão.

Nada impede que os advogados de um Lula, hóspede de uma cela, entrem com recurso contra a decisão de exclui-lo do pleito, segundo apurou o jornal online Jota, especializado em temas jurídicos. A primeira reação de alguém, embora de boa cultura jurídica e política, é perguntar como é possível um político duplamente condenado, que responde a vários processos e finalmente é preso, disputar uma eleição.

Principalmente tratando-se de um político cujos malfeito foram expostos durante um ano, protagonizando longas e nauseantes reportagens pela “TV Lava-Jato”, em cenas de terror corrupto, nas quais os mais íntimos amigos admitiam: “Lula sabia”, “Lula era o chefe”, “entreguei dinheiro a Lula em espécie”.

Será tema para manual de sociologia explicar como, depois de tudo isso, desse festival de desgaste e exposição negativa, como as pesquisas o apontam eterno proprietário de pelo menos um quarto do eleitorado.

E ainda por cima emule uma disputa com seu atípoda, o deputado Jair Bolsonaro, cuja declaração mais relevante à revista Veja que lhe dedicou matéria de capa foi: “Sobre economia não tenho opinião”. O programa do seu adversário todos já sofremos na carne – desarranjo econômico com um impeachment de cereja do bolo.

Quem são os responsáveis pela polarização da eleição?

Não fomos tão politicamente pobres nem quando Jânio Quadros, desgrenhado, abraçado a uma vassoura e com um sanduiche envolto em papel de embrulho no bolso (para comer no palanque, mesmo depois bem jantado), vociferava contra a corrupção barata nas repartições dos barnabés.

O mais trágico, contudo, não é discutir se será “com ou se Lula”, mas já saber de véspera quem é o responsável por tal dilema – um centro político que, sendo maioria, recusa-se a articular-se para vencer a polarização.

Tucanos, Marina, Ciro, Meirelles, todos nomes com potenciais percentuais de 10%, em vez do diálogo preferem a competição que leva à ausência de troféu. Escolhem a divisão que permite a Lula e Bolsonaro radicalizar e impor humilhante derrota ao centro, maior que eles.

Francamente. É um comportamento que os escafandristas do futuro catalogarão como um vírus que só prosperava abaixo da linha da estultice.