O senador Jorge Viana (PT-AC), 57 anos, literalmente salvou a pátria no início deste mês. O ministro Marco Aurélio de Melo, do Supremo Tribunal Federal, determinara que o presidente do Senado Federal fosse afastado do cargo por ser réu em processo de tramita na justiça. Caso a decisão se transformasse em realidade, Jorge Viana iria substituí-lo. Seu partido, o PT, é contra o esforço de ajuste fiscal realizado pelo presidente Michel Temer. Não é difícil prever que haveria um congestionamento de discursos e recursos judiciais contra e a favor desta nova controvérsia. E o governo federal teria sua estabilidade seriamente afetada.

Mas nada disso aconteceu por causa de um exemplo clássico de sincronicidade. Acontece que Viana e Carmen Lucia, ela presidente do Supremo, são amigos desde outros carnavais. Nada a ver com política. Viana, nascido em Rio Branco, no Acre, formou-se engenheiro florestal na UnB, em Brasília. Ela vem de Montes Claros e teve diversas passagens por Brasília. Os dois se encontraram no dia seguinte a decisão de Marco Aurélio no gabinete do presidente do STF e combinaram todo o esquema. Fizeram as consultas necessárias. Renan Calheiros não assinaria a citação levada pelo oficial de justiça. Na sessão do plenário do Supremo, o ministro decano, Celso de Melo, abriria a dissidência que sinalizaria a posição dos demais ministros. Assim ocorreu: Renan perdeu a condição de substituir o presidente da República, mas manteve-se no cargo que vai exercer até o final de janeiro de 2017.

O acreano tranquilo saiu do Supremo e retornou ao Senado sem dar demonstrações do que havia feito junto com a ministra Carmen Lúcia. Só disse, quando perguntado, que o presidente do Senado era Renan Calheiros. Depois que o incidente foi ultrapassado, o presidente do Senado fez no microfone um agradecimento ao trabalho lúcido do oposicionista. Jorge Viana, que já foi prefeito de Rio Branco, governador do estado por duas vezes, demonstrou que experiência é fundamental. Não quis se envolver em eventual estado de guerra entre petistas e a turma de Temer. Recolheu-se a sombra e foi curtir suas merecidas férias. Contribuiu para amenizar a crise que floresce em Brasília.

Os depoimentos dos delatores premiados da Odebrecht já chegaram ao Supremo Tribunal Federal onde estão depositadas numa sala cofre. Assessores escolhidos a dedo pelo ministro Teori Zavascki vão ler todo o material a indicar soluções. A maioria deverá ser aceita. Uma ou outra, por causa de defeito instrumental, poderá ser devolvida à procuradoria geral da República. Essa presteza adianta o processo. É possível que todo ele seja do conhecimento público no primeiro semestre de 2017. A bomba vai explodir estado por estado, depois no Congresso, mas vai passear por diversos legislativos estaduais e até municipais. Será uma aula de corrupção em nível nacional.

A Odebrecht é uma empresa organizada de maneira diferente das suas concorrentes, que são hierarquizadas. Na construtora baiana, os gerentes tinham ou ainda têm muito poder e competência para agir. Eles eram tratados quase como empresas terceirizadas. Recebiam prêmios em dinheiro, e outras vantagens, se adiantassem o ritmo das obras, as entregassem antes do prazo ou com custo reduzido. Nas outras grandes empreiteiras brasileiras o sistema de trabalho é o tradicional, com diretor, superintendente e gerente. Daí porque fizeram a fila de 77 executivos para falar aos procuradores da República. Antes, todos foram demitidos, e souberam que o ministério público pretende abocanhar 35% do recebível a título de compensar os desvios dos dinheiros públicos.

O problema é que as contas do comando central da Odebrecht não batem com as alegações dos delatores. Algumas situações curiosas poderão acontecer nos próximos tempos dentro deste bom filme de suspense. Poderá aparecer gente como destino de propina que nunca recebeu um único centavo. E pessoa que afirma ter pagado, digamos dez, mas só cinco chegaram ao destinatário final. Enfim, existe uma incrível história paralela, que pode ser chamada de propina da propina. Nas empresas concorrentes há quem esteja rindo muito nos últimos dias.

Surgiram, nos últimos dias, os primeiros sinais de acomodação das camadas. O governador do Maranhão, Flávio Dino, o homem forte do PCdoB, declarou que “não há saída que não seja Temer, mas a transição tem que ser pactuada”. O PT de Jorge Viana contornou a crise, depois de o PCdo B admitir conversar com o governo federal. Alguma coisa mudou neste final do desastroso 2016. Bom Natal.