O final do ano de 2016 promete ser mais emocionante que seu tumultuado transcorrer. Dois ex-governadores do estado do Rio de Janeiro estão presos por crimes diversos, eleitorais, financeiros e penais. Barra pesada. A política pede por socorro.

As assembleias legislativas no Rio e de Belo Horizonte foram objeto de vigorosas manifestações. Mineiros não invadiram, apenas protestaram contra a maioria dominada pelo governador Pimentel que impede a abertura de processo contra ele. No Rio, o pessoal invadiu e dominou o prédio para protestar contra a falência confessada do executivo fluminense.

Além disso, um grupo, bem organizado, entrou sorrateiramente nas dependências da Câmara de Deputados, não chamou a atenção da segurança e, de repente, unidos, invadiram o plenário e tomaram a mesa que dirige os trabalhos. Foi uma bagunça organizada, mesmo porque os invasores tinham palavras de ordem diferentes. Cada um clamava por uma política.

Juntos, condenavam, em termos pesados, as mais recentes ações dos parlamentares. Os invasores foram todos presos, mas o recado foi dado. Os políticos não desfrutam de bom prestígio junto à população.

É preciso unir todos estes movimentos para entender que no momento o Brasil está vivendo profunda crise econômica e financeira. Afastar Dilma Rousseff da presidência da República não foi suficiente para que o país se reencontrasse com o desenvolvimento, crescimento e reequilíbrio de suas contas.

As administrações do Partido dos Trabalhadores foram ruinosas. Provocaram um desequilíbrio brutal. É difícil recuperar o tempo perdido no curto prazo. Cerca de vinte estados da federação estão em situação falimentar. Será necessário realizar pesado ajuste para reequilibrar receita e despesa.

A ex-presidente autorizou que os estados elevassem seu endividamento. Foi complacente com contratações de funcionários públicos e elevação de salários. O resultado chegou. A conta sempre chega. E as delações estão colocando políticos de expressão contra a parede.

As mesadas recebidas pelo ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, alcançavam a expressiva soma de R$ 500 mil por mês, pagos por empreiteiras. As investigações estão prosperando. O Congresso, contra a parede, tentar criar alguma restrição contra o chamado abuso de autoridade. E fugir da criminalização do caixa dois.

No ambiente atual será difícil aprovar uma e outra medida. A delação de Marcelo Odebrecht e de cinquenta executivos da empresa ainda não estão em cena. Quando foram revelados os respectivos conteúdos, o panorama político nacional vai se transformar em cena de filme de terror. Não será improvável que personagens de destaque do governo federal sejam incriminados. Nenhum parlamentar escapa da acusação de receber doações no caixa dois.

Essa confusão toda que está pegando governadores vai começar a criar problemas dentro do Congresso, na medida em que senadores e deputados sejam atingidos. Na etapa seguinte, pode ser atingido o próprio governo Michel Temer. A hipótese é de o atual governo desabar por força de delações, acusações e comprovações.

Neste caso, o novo homem forte da política brasileira poderá ser escolhido por eleição indireta, realizada no Congresso Nacional. Os mesmos parlamentares acusados de uma série de ilegalidades seriam, então, chamados a escolher o novo presidente da República que completaria o mandato.

Essa é a previsão de gente que teve acesso ao arrazoado produzido pelo ministro Herman Benjamin, do Tribunal Superior Eleitoral, relator do processo que examina ilegalidades eventualmente ocorridas nas contas da chapa Dilma/Temer na última eleição para presidência da República. Informações de pessoas supostamente conhecedoras do assunto dizem que as revelações são espantosas.

A condenação pelo relator seria certa. Mas há outros juízes no colegiado e ninguém tem certeza na sentença final. De qualquer forma, o governo Temer vai enfrentar tempos muito difíceis neste final de 2016. Vai ventar forte.

São muitas crises superpostas. A crise financeira é a mãe. Os malfeitos de governadores, deputados e senadores são outra parte do assunto. Os supersalários, os desvios, a roubalheira aberta e desabusada transforma tudo isso numa mera questão de política.

Neste particular reina o juiz Sergio Moro. Não há política, nem negociação, que faça o desastre desparecer. O país vai ter que passar pelo tumulto institucional. Michel Temer pode recorrer à mesma resposta oferecida pelo ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica quando um repórter lhe perguntou como definiria, em uma palavra, o governo de Donald Trump. Ele respondeu: socorro.

Publicado no Correio Braziliense em 19/11/2016.