A eleição americana, vencida na madrugada desta quarta (09) de maneira surpreendente pelo candidato republicano Donald Trump, deixará lições, marcas, manchas e consequências. Algumas delas sentidas apenas nos Estados Unidos. Outras percebidas pelo mundo inteiro, inclusive o Brasil.

No intrigante e polêmico livro A quarta revolução, John Micklethwait e Adrian Wooldridge defendem a tese de que o mundo ocidental e a sua democracia precisam se reinventar. Apesar de os autores se apoiarem em alguns argumentos dos quais discordo, com flertes ocasionais e sutis com o autoritarismo, eles acertam no diagnóstico de que governos inchados, Parlamentos pouco representativos, ineficiência estatal e soluções tampões estão promovendo uma enxurrada de consequências anti-establishments, algumas irresponsáveis, como o republicano Donald Trump e o Brexit, no Reino Unido. Também geram intensas divisões na sociedade.

Os Estados Unidos perceberam após uma longa e sangrenta eleição, que estão absolutamente divididos. Entre os educados e deseducados, homens e mulheres, negros e brancos, jovens e velhos, urbanos e rurais. Mesmo em eleições passadas, quando votos de demografias específicas fizeram a diferença, não se notava tamanha divisão, muitas vezes raivosa, de diferentes grupos de eleitores. A eterna divisão partidária americana ganhou um contraste tão grande que acabou evidenciando contrastes raciais, elitistas e de gênero que chocaram o mundo.

Essa divisão nos Estados Unidos é sinal da insatisfação geral com o establishment político. Mesmo popular e saindo da presidência com belos resultados econômicos, Barack Obama não foi capaz de gerar confiança e sinergia entre Washington D.C. e o povo americano. Há uma sensação geral de que forças maiores controlam tudo e todos.

Um sinal foi o intenso e inesperado sucesso entre jovens e millennials de um socialista de 74 anos chamado Bernie Sanders. Suas ideias, muitas delas quase impossíveis de serem concretizadas, seduziram uma parcela do eleitorado, desiludida e distante da política. Acabou ficando pelo meio do caminho principalmente por conta do… establishment.

O dinheiro da campanha de Hillary e os superdelegados democratas não permitiram um crescimento maior do simpático velhinho. Já Trump, avassalador, confiou em seu instinto e demoliu o establishment. Venceu sem o apoio da grande imprensa. Apenas um jornal de médio ou grande porte o endossou. Sua mensagem populista caiu como uma luva no centro-oeste dos Estados Unidos. As minorias, que elegeram Obama, apoiaram Hillary, mas em intensidade muito menor.

É nesse ambiente de crise da democracia que candidatos como Donald Trump acham espaço para proliferar. E, para que fique claro, acho, sim, que a democracia está em crise por conta das insatisfações gerais e globais e da falta de sintonia entre eleitos e eleitores. Só que não penso que isso resultará em um novo sistema ausente de liberdades individuais, mas em uma nova geração de políticos e, posteriormente, em um sistema democrático 2.0. Políticos serão obrigados a se reinventar.

Voltando a Trump. Ele é um exemplo de outra lição desse ciclo eleitoral. Vivemos em um mundo pós-fato. A decência bastante questionável de Trump extrapolou o campo moral e caminhou, com conforto e destreza, pela seara dos argumentos. Inúmeras vezes usou dados errados e afirmações obviamente falsas.

Chegou a dizer em discurso em New Hampshire que 42% dos americanos estavam desempregados. Não importa. Ele não chegou aonde chegou, e não conquistou quem conquistou, usando raciocínios e dados corretos. Foi a sua postura agressiva e a sua repulsa ao sistema político que o impulsionaram. Quem dita o sucesso dos candidatos não são as propostas, é a temperatura média das ruas. E no mundo todo a insatisfação cria temperaturas altas. Trump mediu o pulso do americano médio e achou a sua mensagem.

Está cada vez mais evidente que os políticos não nos representam, gerando uma nuvem de insatisfação que cobre o mundo, mas troveja principalmente em locais com economias cambaleantes, de Brasília a Madrid, passando por Istambul e Reykjavik.

Tenho a impressão de que nos anos seguintes veremos uma explosão de acontecimentos antiestablishment, em especial em países economicamente frágeis, onde a crise financeira inflamará a raiva reprimida por conta de relações pornográficas entre Estado e empresas, tão bem explanada por Sergio Lazzarini em Capitalismo de laços. Tenho dúvida, porém, que isso deixe marcas profundas em sistemas políticos. Acredito que serão pontuais. Ora positivos, ora negativos.

Em Reinventar a democracia, o professor Manuel Arriaga explica que a sociedade tem enorme dificuldade em propor alternativas convincentes aos problemas atuais, inclusive em relação à frustração generalizada em torno da política. Essa incapacidade citada por Arriaga é maior no nosso país.

E essa é a sorte do nosso establishment. Não acredito em outsiders de verdade, pelo menos no próximo ciclo eleitoral. Criamos partidos a rodo, mesmo assim sete em dez brasileiros não se sentem representados por nenhum. Cenário propício para um outsider? Talvez. Mas o engessamento deste sistema pluripartidário pouco representativo ainda produzirá candidatos alinhados ao mundo político.

No Brasil, há anos flertamos com a ideia antipolítica, mas apenas tirando um prefeito aqui e acolá. Nunca chegamos nem perto de criar um movimento novo. A ex-senadora Marina Silva (Rede) tentou. Não conseguiu. O prefeito eleito João Dória Jr. (PSDB), em São Paulo, é o mais forte exemplo dos últimos tempos, no entanto está longe de representar uma ameaça real ao nosso establishment.

Mesmo que tenhamos um cenário no médio prazo de um presidente fora do sistema político tradicional, ainda acredito que, por algum tempo, as forças tradicionais continuarão ditando as regras, com eventuais e pontuais mudanças no poder que dêem uma falsa sensação de liberdade.