É preciso recomeçar com a política. O noticiário político brasileiro está muito pobre. Não há visão estratégica, ninguém fala de crescimento, desenvolvimento ou progresso. As palavras são restritas a um vocabulário recessivo e temeroso do próximo capítulo da operação Lava-Jato.

O governo Temer ainda não anunciou suas metas e objetivos. Neste momento, economistas sobem no palco e fazem previsões. A maioria delas não guarda muita relação com a realidade. Mas cada um pode desenhar o futuro segundo suas próprias crenças.

Sonhar não custa nada. Executar sonhos exige aumento de impostos, taxas e outras obrigações. Mas quem paga as abstrações dos técnicos é a classe média. A ex-presidente Dilma Rousseff foi obrigada a deixar o poder quando o povo percebeu que suas afirmações não tinham correspondência na realidade. Ela tentou iludir a população. Já está em casa. Passeou no Rio de Janeiro ao lado da candidata Jandira Feghali. Afundou a correligionária. Abraço de afogado.

Nesta semana em que mais um político é condenado a passar décadas atrás das grades, é bom lembrar que o Brasil já foi diferente. Depois de 24 anos a saudade ainda incomoda. A maioria dos artigos e celebrações tende a lembrar de Ulysses Guimarães, a grande figura, o timoneiro que conduziu a nação ao porto seguro da Constituinte.

Sem dúvida, Dr. Ulysses merece todas as homenagens por ter sido um político com visão, capacidade de agir, vontade de conversar, coragem para enfrentar e humildade para entregar o poder a quem, naquele momento, tinha maiores possibilidades, seu amigo, Tancredo Neves.

O corpo de Ulysses Guimarães nunca foi encontrado. Naquele desastre de helicóptero no litoral de São Paulo faleceu também Severo Gomes (e sua mulher Maria Henriqueta, além de D. Mora) que tinha sido Ministro da Indústria e Comercio no governo Geisel e dele dissentiu.

Era agitado. No Ministério criou um órgão chamado Centro Nacional de Referências Culturais – CNRC – que entregou a competência do saudoso Aloisio Magalhães. Severo Gomes deixou o Ministério, escreveu um livro, cujo titulo é Tempo de Mudar. Escrevi o prefácio.

Ele articulou com o general Euler Bentes Monteiro uma anticandidatura contra o postulante oficial, João Figueiredo. Anticandidatura é destinada a não dar certo. E não deu. Mas incomodou muito o governo militar e ajudou o então MDB a ampliar sua bancada no Congresso.

Severo Gomes elegeu-se senador em São Paulo em 1982, participou ativamente da Constituinte. Muito antes de se falar em ecologia, ele se envolveu com as questões indígenas. Foi um dos mais persistentes defensores da criação da reserva Ianomâmi, em Roraima. Vez por outra viajava até lá para conversar com as lideranças indígenas.

Faltam Severos e Ulysses na política brasileira atual. Como falta Marco Maciel, que embora resida em Brasília, padece de grave moléstia. Severo Gomes era um boa praça. Curtia a vida. Sabia beber e adorava dizer a origem de uma boa cachaça.

Foi cortejado por Leonel Brizola para ser candidato à vice-presidente da República na chapa do gaúcho. Não aceitou. O intermediário do convite foi o então deputado e hoje jornalista de TV, Roberto d Ávila. Depois foi sondado para ser Ministro da Cultura no governo Itamar. Agradeceu e decidiu retornar a seus negócios.

Essas pessoas raras fizeram a transição do Brasil dos militares para o dos civis sem que um único tiro fosse disparado. Tudo caminhou na base da conversa, da negociação e do entendimento. Mesmo quando havia enfrentamento. Todos procuravam conversar até encontrar as possibilidades de caminhar.

Naquela época, Lula era um metalúrgico que havia sido eleito para a Câmara dos Deputados. Radical. Os petistas decidiram não assinar a nova Constituição. Os que o fizeram foram expulsos da sigla. Eles não queriam conversar com os burgueses.

Com o passar do tempo, eles se articularam bem com os burgueses. Foram fundo na construção de alianças que aproveitava tecnologia das grandes empreiteiras brasileiras com o financiamento estatal. Esse foi o terreno onde vicejou a corrupção em alto estilo.

Governo e empresa se tornaram sócios nos objetivos, sem maiores riscos. A única inconveniência era a necessidade de passar por eleições a cada quatro anos para legitimar todo o sistema. As propinas irrigavam o conjunto de ações. E nas beiradas os principais protagonistas fizeram fortuna.

O empenho, a habilidade e a competência dos criadores da Nova República foram soterrados pela ação pragmática dos petistas. Eles desmontaram a credibilidade dos políticos dentro e fora do país. É hora de olhar para frente. E recomeçar.