A nota oficial da Comissão Nacional do PT, divulgada no dia 5 de outubro, é um desastre político. Sugiro a meus colegas, professores de ciência política, que a levem para a sala de aula. Não para fazer proselitismo político, mas para instigar os estudantes a lerem e compreenderem o que é uma nota desastrosa politicamente.

A nota começa culpando “a mídia monopolizada e os aparatos da classe dominante” pela derrota estrondosa do partido nas eleições. É a primeira frase. O leitor inteligente logo se pergunta: onde estavam estes “monstros” que não impediram as vitórias eleitorais de Lula e Dilma? A luta de classes não foi criada ontem, nem anteontem. Há muito que a sociedade moderna é a sociedade da regulação de conflitos, entre o capital e trabalho, mas também entre gêneros, etnias, nacionalidades, religiões e direitos, para citar alguns. Conflitos que perpassam a sociedade moderna, obrigando-a a desenvolver o aparato mais sofisticado que se conhece para gerencia-los.

Por outro lado, o início da nota esquece de dizer que, enquanto os mais pobres deste país ganhavam dezenas ou centenas de reais, os Bancos ganhavam milhões, senão bilhões. Ou seja, a execrável classe dominante ganhou muito mais do que os trabalhadores pobres nos governos Lula-Dilma.

Derrota do PT partiu da base

Há outros fatores, além dos supracitados “monstros”, entre eles, os erros do partido. Mas, não se alegre o leitor inteligente para pensar que a nota se refere ao conjunto de erros que o PT fez em seus treze anos de governo. O primeiro dos quais foi o de jogar a ética na lata do lixo e, o segundo, de não realizar qualquer reforma substantiva. Ledo engano. Os erros citados foram aqueles que “antecederam as eleições e durante o seu transcurso”.

Contudo, não apenas os “monstros” são os culpados, a oposição também tem culpa no clima negativo e desfavorável ao PT. Segundo a nota, “os derrotados nas urnas sabotaram” o governo da presidente Dilma. Estranho, absolutamente estranho. A oposição não tinha qualquer expressão parlamentar para derrotar qualquer medida do Planalto. O governo eleito o foi com uma maioria congressual de cerca de 70%. Até emendas constitucionais poderiam ter sido aprovadas sem problema. Assim, quem a derrotou foi a sua base eleitoral, que rachou, e não a oposição. Ou seja, parte dos eleitos e não dos derrotados.

O ajuste fiscal de Dilma

Finalmente, para ficar no mais essencial. O desastroso ajuste fiscal que Dilma pretendeu implantar serviu “de pretexto para a narrativa do estelionato eleitoral”, que os partidos conservadores e a classe dominante impuseram, diz a nota. A expressão estelionato eleitoral é clara, refere-se ao fato do governante eleito implantar uma política oposta àquela que apresentou ao eleitor, ludibriando-o. Mas, afinal, quem disse que Aécio ou Marina, caso fossem eleitos, implementariam um ajuste fiscal foi Dilma. Segundo a ex-presidente o País não estava em crise e nem havia risco para tal. O ajuste era uma política da direita para roubar os direitos dos trabalhadores.

A infelicidade foi tanta que não apenas Dilma começou a preparar um ajuste fiscal logo depois de eleita, como sua primeira proposta foi a de reduzir o tempo do seguro desemprego, ou seja, reduzindo direitos dos trabalhadores. Poderia ter começado propondo uma tributação sobre grandes heranças ou sobre pessoas de altíssima renda ou simplesmente obrigando os empresários a pagarem impostos (de que são dispensados). Não. Começou metendo a mão no bolso dos mais vulneráveis, os que estavam perdendo o emprego.

Apoio no segundo turno

É com esta nota que o PT pensa mobilizar militantes e simpatizantes de outros partidos, como a REDE e o PSOL, em torno de seus candidatos, para evitar que a derrota seja ainda maior. O PSOL que saiu do PT porque este se transformara em um “partido burguês”? A REDE, cuja líder foi pisoteada desonesta, e perversamente, durante a campanha eleitoral?

Para não ficar por menos a nota ainda se encerra proclamando a luta em favor da “reforma do sistema politico”. E os treze anos no poder não foram suficientes para fazer esta reforma? É querer fazer o eleitor de bobo.

Elimar Pinheiro do Nascimento, sociólogo, professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília