Volta e meia algo estrondoso acontece e uma parcela da população passa a prestar mais atenção a um determinado assunto. A imprensa internacional, por exemplo, redescobriu o Brasil com a tríade Copa-Impeachment-Olimpíadas e despejou bobagens e obviedades por meses na imprensa e nas mídias sociais. Por aqui, acabamos de descobrir o centrão. A raiz dos problemas políticos do Brasil. O que há de pior no Congresso. Não é bem isso.

O centrão, os partidos pequenos e nanicos e o fisiologismo sempre existiram. São uma característica do sistema político brasileiro que, por conta de uma incompetência nunca antes vista por um chefe do Executivo, acabou virando tema da moda. O centrão sempre se rebelerá em um ambiente onde a base aliada se esfacela.

O baixo clero, formado por diversos partidos pequenos e médios sem identificação ideológica, sempre fez parte do dia a dia da política nacional. Tais partidos cumprem um papel, organizando a expressão política de vários outros pequenos e médios. Ficavam nas sombras, alimentados por cargos de terceiro e quarto escalões e de emendas parlamentares ocasionais. Com interesses difusos e sem uma liderança única, contentavam-se com pouco. Até a chegada de Dilma Rousseff à Presidência, eles não eram o problemão de hoje.

Os ex-presidentes FHC e Lula, por exemplo, governaram em ambientes tão fragmentados quanto Dilma. Mas, com suas habilidades políticas e equipes muito mais bem preparadas, conseguiram lidar com a fome do centrão. Entendiam o presidencialismo de coalizão. Dilma e seu ministro Aloizio Mercadante, não. Criaram um bunker paranoico e autoritário dentro do Palácio do Planalto. Já o presidente Michel Temer teve mais encontros com parlamentares durante seus dois meses de interinidade do que Dilma em seis anos na Presidência da República.

O modelo é quase estatístico. Quem é base aliada, vota com o governo e recebe os benefícios de ser governo: cargos, emendas, influência e poder. Quem vota contra, perde os benefícios. Dilma ignorou essa regrinha. Um exemplo surreal foi a sua relação com o agora ex-deputado Eduardo Cunha. Quando ele era o presidente da Câmara e aterrorizava o governo com pautas-bombas, críticas explícitas e ameaças claras, Dilma mantinha vários de seus aliados em posições-chave do governo federal. Cunha já havia aberto o processo de impeachment contra a presidente mas mantinha, por exemplo, um forte aliado dentro da Caixa Econômica Federal.

Se Dilma não tinha paciência para manter na linha políticos do porte de Cunha, imagine os do baixo clero. Ignorou-os. Deixou o centrão completamente abandonado. Com uma postura apolítica, criou um ambiente propício para o monstro político de Cunha crescer, influenciar e liderar. Dilma é responsável direta pelo fortalecimento político de Cunha que presenciamos neste último ano. A postura hiperpresidencialista da ex-presidente deu ao Congresso o papel de protagonista que, tempos depois, a derrubaria. E deu a Cunha a liderança desse processo.

Por outro lado, o comportamento apolítico de Dilma escancarou um velho problema de Brasília que muitos setores da sociedade ainda não conheciam, ou ignoravam: o fisiologismo agressivo de boa parte do Congresso. Infelizmente, apenas esse holofote não será suficiente para mudar o fisiologismo genético do nosso Parlamento.

Neste momento, a retomada imediata do crescimento do país passa por uma série de medidas que dependem de aprovação na Casa. A única receita é a tal regrinha já mencionada: benefícios para a base aliada, nada para a oposição. Por conta dela, o nosso Congresso sempre foi governista. Aliás, quase sempre. Dois presidentes a ignoraram: Dilma e Fernando Collor. Goste ou não, é o modelo vigente na política nacional e seria autoengano desconsiderar a realidade. Para mudarmos estruturalmente — e é preciso mudar —, apenas com uma Reforma Política ampla e a esperança de eleitores mais preparados. Mas isso é tema para outro artigo.

Enquanto as reformas estruturais não acontecem, a única maneira de voltar a crescer é avançando nas essenciais medidas do ajuste fiscal. Para conseguir isso, o presidente Michel Temer e companhia não podem cometer erros. Principalmente os erros de Dilma, que transformou a base aliada e o centrão em problema, quando ambos deveriam ter sido parte central da solução.

Publicado no Correio Braziliense em 19/09/2016.