A história da política está repleta de exemplos de ações destinadas a ter objetivo determinado que alcançaram resultados diferentes do planejado. O então presidente Collor, em 1992, convocou a juventude para defender seu governo com manifestações de rua. A rapaziada promoveu manifestações com o rosto pintado de preto para reivindicar o impeachment dele. A ex-presidente Dilma tentou nomear Lula para seu ministério e acabou revelando a tentativa canhestra de obstruir a justiça e proteger o ex-presidente de um confronto fatal com o juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Nos dois casos, deu tudo errado. Acontece.

Os caminhos da história costumam ser vadios e delirantes. Imprevisíveis. Mas com boa dose de cautela é possível lidar com ocorrências extraordinárias ou imprevistas. Os procuradores do ministério público em Curitiba fizeram o seu lance espetacular. Denunciaram Lula. Não apresentaram fato novo, mas elaboraram o roteiro da corrupção. A prova mais evidente se dá no episódio do pagamento da manutenção do acervo do ex-presidente por uma empreiteira. Ali as notas demonstram a transação.

O resto da história é conhecido. Mas ao se tratar de ex-presidente da República é preciso levar em consideração que a apreciação do processo sempre terá repercussões políticas. A análise pode ser jurídica, mas as consequências serão eleitorais. Lula é, até agora, o candidato do Partido dos Trabalhadores à presidência da República na eleição de 2018. Se ele for condenado pelo juiz Sérgio Moro, surgirão, naturalmente, recursos para a segunda instância. Novamente condenado, por órgão colegiado, ele ficará inelegível. Eventual recurso a tribunal superior poderá livrá-lo da condenação, mas os prazos exigidos pela legislação eleitoral poderão fazer com que ele fique fora da disputa.

A liderança do PT afirma que o partido só tem um projeto para a eleição de 2018. É Lula. Os movimentos de Curitiba poderão ser essencialmente jurídicos, mas as consequências políticas serão inevitáveis. Será necessário ter muita calma nessa hora porque o país está chegando perto do confronto ideológico. O governo Dilma Rousseff foi desastroso para a economia do país. Destruiu a indústria, trucidou o profissionalismo do Itamaraty, provocou desemprego abissal. Nada disso se refaz com rapidez. Será difícil, demorado e doloroso reverter todo o quadro.

O discurso nacionalista de Rousseff colocou a Petrobras na situação de ter que se desfazer de seus principais ativos. A empresa foi saqueada pelos políticos, principalmente pelos representantes do PT. As principais empreiteiras brasileiras estão bordejando a falência. Não estão em condições de expandir atividades. Ao contrário, lutam para manter as portas abertas, depois de realizar gigantescos cortes de pessoal, de atividades e reduzir a amplitude dos negócios. Em resumo, o país está em situação falimentar.

Não é por acaso que os estados estão perto de declarar estado de calamidade, como fez o governador do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles. A arrecadação dos estados e da União se reduziu a níveis alarmantes. Sem atividade econômica, não há pagamento de impostos. Tudo se reduz. Esse é o principal legado da administração que foi encerrada pelo impeachment votado no Senado Federal. É difícil e demorado fazer com que o país volte a produzir superávits, coloque suas contas no azul e retome o crescimento.

Cerca de 140 milhões de eleitores vão votar na próxima eleição, no início de outubro. São 495.403 candidatos, 16.816 deles para prefeito. Outros 461 mil disputam as vagas de vereador. Há de tudo nessa legião de candidatos. Branco, preto, pardo, investidor, funcionário público, padres, gente com ficha suja, líderes sindicais e até gente vocacionada para a política. Destaque é para a filha de Fernandinho Beira Mar, Fernanda Izabel Costa, candidata a vereadora em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. O passado dela não a condena.

Os tempos são nebulosos. A investigação dos malfeitos pelos políticos na operação lava-jato tende a modificar o comportamento dos candidatos. Agora, a legislação proíbe doação de empresas. Mas interesses e ideologias continuam não deixando de existir. Ninguém se arrisca a prever o que vem por aí, nem Guido Mantega. Lula e seus aliados vão espernear contra o juiz de Curitiba. O resultado da eleição, contudo, será a pesquisa mais reveladora do que pensa o brasileiro. Vai demonstrar se o PT tem capacidade para sobreviver como protagonista na política brasileira.

Publicado no Correio Braziliense em 24/09/2016.