A hidrelétrica de Tucuruí, situada 300 quilômetros ao sul de Belém, em linha reta, é a maior do Brasil. Produz 8.370 MW, o que é muito. É menor que Itaipu (14.000 MW), mas esta é binacional, metade dela pertence ao Paraguai. A construção da barragem, em plena selva amazônica, em área tropical, foi uma epopeia cercada de riscos e problemas graves. Por exemplo: não havia brita para fazer concreto. Esse foi apenas uma das dificuldades para viabilizar o empreendimento que hoje não deixa o nordeste ficar no escuro.

Sua construção foi muito criticada na época. Os ecologistas diziam que o nível do rio Tocantins iria baixar e o rio Guamá que banha Belém também teria sua vazão reduzida. Assim, o mar invadiria o sistema de abastecimento da capital paraense. O povo teria que beber água salgada. Também havia o desafio de que as terras em região tropical não suportariam o peso de um reservatório tão grande. O desastre era inevitável na visão dos desafetos da obra. Tucuruí foi construída, está funcionando e abastece parte do norte e do nordeste brasileiros. O povo de Belém bebe água normal, como de qualquer outra cidade do país.

A hidrelétrica foi inaugurada no dia 22 de novembro de 1984. Era um tempo politicamente difícil, parecido com os atuais. Naquele período a discussão girava em torno da emenda Dante de Oliveira (PEC 05/83) que instituía a eleição direta no Brasil. A emenda foi rejeitada em abril de 84, mas os comícios em favor de diretas se multiplicavam pelo país. No dia da inauguração de Tucuruí o presidente João Batista Figueiredo desembarcou na usina deu alguns passos e parou para conversar com os repórteres. Um deles perguntou sua opinião a respeito da emenda Dante de Oliveira. Figueiredo disse que se estivesse no Congresso votaria a favor.

As manchetes de todos os grandes jornais brasileiros, no dia seguinte, apontavam para o fato de que o presidente militar apoiaria a realização de eleições diretas para a presidência da República. Figueiredo não queria a candidatura de Paulo Maluf, mas isso é outra história. Tancredo Neves já trabalhava em silêncio para ganhar no Colégio Eleitoral, como ocorreu.

O episódio demonstra uma tragédia na área de comunicação. Estava tudo pronto para que os jornais do dia seguinte, os noticiários da noite na televisão, mostrassem um aspecto relevante do Brasil que estava se ajustando às necessidades do desenvolvimento. A inauguração da enorme hidrelétrica na Amazônia era símbolo do país moderno e da integração entre norte e sul. Mas a inauguração da usina ficou em segundo ou terceiro plano. Virou nota de pé de página. Mereceu apenas comentários de jornalistas especializados. A questão política superou de longe o fato de um país de terceiro mundo ter construído uma enorme hidrelétrica em área tropical.

Há muita distância entre 1984 e 2016

Essa é uma boa história para ser lembrada agora, quando o PT e seus aliados tentam revitalizar a campanha das diretas já. Existe o slogan Fora Temer e Diretas Já. Não existe a palavra de ordem Volta Dilma. O objetivo é desestabilizar o governo Temer por intermédio da pressão pela realização de eleições já para presidente da República. Há muita distância entre 1984 e 2016. Os tempos são diferentes, o Brasil mudou muito e o mundo também. Difícil reverberar agora algo que foi importante há três décadas.

Ocorre que o novo governo não se apresentou ao povo brasileiro. Assumiu e começou a tomar decisões sem haver uma conversa com olho no olho. É preciso dizer a que veio, qual é o projeto, quais são as metas e qual é sua sustentação política. Além disso, é de bom tom falar sobre legitimidade. Afinal de contas, os eleitores de Dilma Rousseff, os 54 milhões, também votaram em Michel Temer. E, por último, o governo precisa dizer a todos que não é uma administração voltada para atender interesses de sua base aliada ou do PMDB. É um governo para todos os brasileiros, disposto a pacificar um conturbado e conflituoso momento político atual.

O presidente Temer não fez nada disso até o momento. Sua fala à Nação, logo depois da aprovação do impeachment, foi breve. Teve por objetivo apenas dizer que havia assumido a presidência da República e precisava viajar para o encontro dos dirigentes das vinte maiores economias do mundo. Foi o que fez. Depois anunciou o pacote de privatizações e concessões. Fora deste círculo de giz o debate gira em torno de pontos específicos, como as reformas política e da previdência. O governo corre o risco de um mero fator superveniente, imprevisto e raso, desmontar a sua frágil existência. Não se trata apenas a questão de ter ou não ter porta-voz. O assunto é mais sério. É dizer a que veio e a que se deve sua existência. Falta um começo de conversa.