No final dos anos 90, a América Latina começou a experimentar uma guinada à esquerda nos países latino-americanos que parece ter chegado ao seu limite com a destituição de Dilma Rousseff no Brasil e a crise que levará à Venezuela ao extremismo violento.

Aqueles que não enxergaram os sinais do cansaço deste modelo populista insistem em atribuir ao intervencionismo estrangeiro todos os males e desgraças.

Seria muita ingenuidade imaginar que Washington não mexeu seus pauzinhos para ajudar a derrubar quem já estava no cadafalso, mas também seria um exagero acreditar que os Estados Unidos são os grandes responsáveis pela queda de governos que ignoraram a crise econômica mundial e seguiram vendendo ilusões aos seus povos.

O que levou a Venezuela ao estágio em que se encontra não foi a política norte-americana. Washington sempre lidou com as retóricas de Hugo Chávez e Nicolás Maduro à distância. Caracas nunca deixou de entregar uma única gota de petróleo aos Estados Unidos durante todo este tempo. De longe percebia-se um regime corroído pela corrupção e incompetência, apoiado em um discurso ultrapassado dos tempos da Guerra Fria. A queda, portanto, é questão de tempo e um pouquinho de organização da oposição.

Quando o preço do petróleo bateu os US$ 140 dólares em 2008, Hugo Chávez já estava no poder havia uma década. Poderia ter transformado a realidade socioeconômica do país, mas preferiu fazer política, distribuindo o produto em troca de apoio ao seu regime de perpetuação no poder.

Naquela época, o Secretário-Geral da Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP), Chakib Khelil, chegou a afirmar que os preços se acomodariam no patamar dos US$ 170, podendo chegar aos US$ 400 o barril. O que se viu foi uma queda vertiginosa. Hoje, não consegue se sustentar na casa dos US$ 50.

Não foi apenas a Venezuela quem perdeu. Bolívia, Brasil e Equador, também levaram um tremendo tombo. E isso sem qualquer relação com a roubalheira na Petrobras. A queda nos preços das commodities afetou duramente todos aqueles que não perceberam as mudanças se aproximando.

A esquerda populista, corrupta e míope, começou a cair no Paraguai em 2012 com o impeachment de Fernando Lugo. Vieram as eleições na Argentina e o kirchnerismo é derrotado para surpresa do próprio eleito, Mauricio Macri. Ato seguido, Evo Morales perde o referendo constitucional pelo qual pretendia perpetuar-se no poder com a chamada “reeleição ilimitada”.

No Brasil, a oposição não levou porque é arrogante demais para se unir em torno de um projeto de Estado e Dilma Rousseff foi reeleita com a menor margem já conquistada em 13 anos e quatro meses de governo do PT. Não resistiu um ano e meio em seu segundo mandato.

No Equador, Rafael Correa esconde o jogo. Uma hora diz que não irá mexer na Constituição para tentar outra reeleição. Em outra, prefere semear a dúvida. Está, obviamente, avaliando o contexto. No Uruguai, a Frente Ampla quer manter-se na esquerda, mas prega conceitos como o livre comércio para sobreviver aos novos tempos. No Chile, o socialismo antes elogiado por todos de Michele Bachelet, mostra defecções e se avolumam os casos de corrupção.

Colômbia e Peru vão na contramão. São membros da Aliança do Pacífico que vai muito bem, obrigado, e internamente fazem o dever de casa, algo fundamental para conquistar confiança, credibilidade e investimentos. Até Cuba entendeu que já havia passado da hora de se entender com o império e ao normalizar suas relações com os Estados Unidos, envia uma mensagem clara aos bolivarianos: nesta toada, vão todos para o buraco.

Os Estados Unidos, envolvidos em um processo eleitoral complicado e difícil, ante uma agenda internacional ainda mais conturbada com o ressurgimento da Rússia, o protagonismo da China, o terrorismo islâmico, a crise dos refugiados e uma Europa que vê a unidade se fragmentar, não tem nem tempo e nem interesse em intervir no seu quintal.

Para além desta visão, Washington também não tem os recursos abundantes de outrora e intervenções custam caro. Eles deixam suas digitais aqui e acolá, mas é hora de cada um reexaminar os seus atos, fazer o mea culpa correspondente e repaginar o discurso e a forma de governar.

Não foi apenas a ordem internacional que mudou. As pessoas também mudaram. Elas estão cansadas do surrado “nós contra eles” e querem apenas o resgate da própria dignidade, algo que nem a esquerda e nem a direita souberam lhes dar até hoje.