Os senadores perderam tempo notável na discussão de assuntos menores diante da enormidade da questão Dilma Rousseff. O Senado da República travestiu-se de tribunal para examinar, entender e, finalmente, julgar as pedaladas fiscais cometidas pela chefe do governo brasileiro nos últimos anos. É oportunidade histórica. Os seis anos de governo desastrado e distante da realidade estão sob questionamento. Seus métodos, operadores e objetivos constituem o objeto a ser debatido, criticado e, talvez, sentenciado.

Na posição oposta, os petistas estão tratando de realizar um filme para demonstrar o calvário da presidente. Ela aparece carregando sua cruz ao longo da Esplanada dos Ministérios e sofre com o assédio dos senadores adversários. Será a vítima preferida, sofrida e injustiçada. É o final imaginado por especialistas que pretendem produzir o longa metragem para tentar seduzir o eleitor brasileiro nesta e na próxima eleição. Afinal de contas, o PT não quer afundar no mar proceloso de sua corrupção.

É pena que o julgamento de Dilma Rousseff tenha se transformado numa operação midiática banal. Senadores gritam e se desafiam reciprocamente com o objetivo de conseguir maior audiência. Eles sabem que o país está a um mês das eleições municipais e precisam ter protagonismo em suas respectivas cidades. Vale tudo: dedo na cara, palavras duras, feições carrancudas e alguma erudição. O episódio foi nivelado por baixo. Perdeu seus principais atrativos. Afinal de contas, não é todo dia que um presidente da República senta no banco dos réus.

As descobertas poderão aparecer quando a presidente afastada subir a tribuna do Senado. Os senadores, apesar do fogo de barragem dos petistas, poderão descobrir que Dilma Rousseff foi uma arrojada guerrilheira. Ela planejou em detalhes o roubo do cofre de Ademar de Barros que estava escondido na residência da amante do político paulista em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Quem comandou a operação, em julho de 1969, foi Carlos Minc, depois Ministro da Cultura do próprio governo Dilma.

Dentro do cofre, havia cerca de US$ 2,4 milhões, cuidadosamente guardados por Ana Capriglioni. Ela, familiares e empregados foram rendidos pelo grupo. A ação durou 28 minutos. O cofre pesava 350 quilos, rolou escadas abaixo e quase deformou o carro encarregado de transportá-lo para um subúrbio carioca, onde foi aberto. Sabe-se que um milhão de dólares retornaram para a guerrilha por intermédio das gestões de Miguel Arraes junto ao embaixador da Argélia no Brasil. O dinheiro foi depositado na Suíça. O número da conta foi fornecido a quem de direito.

O resto sumiu. Até hoje não se sabe ao certo quem recebeu o US$ 1,4 milhão, que, em dinheiro de hoje significa quantia várias vezes maior. O tempo passou, Dilma ficou três anos presa em São Paulo depois do julgamento em que foi chamada pelo promotor militar de “Joanna D´Arc da guerrilha”. Cumpriu pena, sofreu torturas e purgou suas culpas. Antes brigou feio com Carlos Lamarca, na reunião da cúpula do VAR Palmares, em Teresópolis, na região serrana do Rio. Ela queria reduzir o ímpeto dos guerrilheiros. Ele preferia avançar na guerrilha urbana. Foi morto no sertão da Bahia.

Tempos depois, a mineira Dilma Rousseff se transferiu para Porto Alegre, onde assinou ficha do PDT. Integrou o governo Alceu Collares na área de energia. Começou sua carreira política por esta porta. Era brizolista de carteirinha. Quando conheceu Lula, transferiu sua fidelidade para o PT. Ascendeu na burocracia do partido e escalou os níveis da estrutura governamental. Foi ministra de Minas e Energia e depois Chefe da Casa Civil. Ao lado disso, exerceu também a presidência do Conselho de Administração da Petrobras.

Assim como ocorria no mundo soviético, a arrojada guerrilheira dos anos sessenta no século passado transformou-se numa poderosa burocrata. Aprendeu a apertar botões, percebeu que as portas passaram a se abrir sem que fizesse esforço e que poderia viajar por onde desejasse sem colocar a mão na bolsa. E não tinha nenhum apreço pelos políticos, nem pela política. Governou na solidão dos palácios, consultando a sua vontade e determinando ordens para seus subordinados. Dilma foi a presidente que podia mais do que sabia. Um caso clássico de pessoa que não deveria estar onde esteve. O tribunal do Senado poderá revelar este lado da presidente. Contribuiria para evitar que os eleitores cometessem o mesmo erro novamente.