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O final das Olimpíadas no Brasil teve como ponto alto não a festa deslumbrante de encerramento, mas o processo como um todo. A beleza da abertura surpreendeu os brasileiros e o mundo, e, de certa forma, a continuação do evento manteve todos permanentemente surpresos. O melhor foi, sem dúvida, o todo. A ponto de confirmar o que Carlos Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, afirmou: fizemos a melhor Olimpíada de todos os tempos. Tanto por causa de nossos acertos quanto por causa de nossos erros e peculiaridades.

Por que foi a melhor de todas as Olimpíadas? Primeiro, pelo fato de que nunca uma Olimpíada foi cercada de tantas expectativas negativas. A imagem do Brasil foi atacada, seguidamente, com e sem razão, seja por conta da poluição da baía de Guanabara, seja pelas doenças que a Lagoa Rodrigo de Freitas poderia transmitir, seja pela epidemia de zika, seja pela violência urbana e pelo índice de criminalidade e, em particular, pelo risco de algum ato terrorista.

Os prognósticos negativos eram amplificados pelo imenso desconhecimento do que somos como povo e de nossa capacidade de fazer o extraordinário. E, ainda, pela bipolaridade dos próprios brasileiros, que oscilam entre o ufanismo e o complexo de vira-lata. Ora somos os melhores do mundo. Ora somos o lixo da humanidade. Obviamente, não somos nem uma coisa nem outra. Mas existe uma regra que explica, em parte, nosso sucesso apesar das expectativas negativas. Como dizem os argentinos, nossos vizinhos, quando nada se espera do Brasil é aí que o país se excede.

A maioria esmagadora das especulações desfavoráveis foram superadas. A simpatia e a hospitalidade do carioca foram decisivas para derreter os corações mais duros. A baía esteve com águas de Caribe, segundo os diretores das regatas. Os serviços funcionaram mais ou menos bem, como, na média, em eventos dessa envergadura em qualquer lugar do mundo. Os problemas de segurança foram pequenos. Bem como os de infraestrutura. O clima descontraído predominou sobre tudo e todos. Foram dias felizes para a maioria dos que vieram para as Olimpíadas.

Que lições ficam? Recorro a Roger Cohen, articulista do New York Times, em texto sobre as Olimpíadas. O Brasil é o “the graveyard of the naysayers”, o túmulo daqueles que o contrariam. Mesmo sendo a melhor Olimpíada de todas, não fomos a Olimpíada ideal. Nunca conseguiríamos fazê-la. Porém, dentro de nossas capacidades, montamos um evento que foi, no dizer do mesmo Cohen, um tônico necessário para a humanidade. E uma lição para os brasileiros que sempre duvidam da capacidade de o país fazer o extraordinário. Não basta. Mas é melhor do que nada.

Temos algumas peculiaridades. Somos muito mais ou menos no ordinário, nas rotinas e no dia a dia. Mas vamos além para fazer o extraordinário, como nos desfiles da Sapucaí e no boi bumbá de Parintins. Superamos tudo para encantar, quando temos uma plateia para deslumbrar. Somos um povo alegórico e nostálgico, que necessita de significados especiais para produzir usando a capacidade plena. O Brasil não tem, no caso das manifestações espetaculares, uma ética de compromisso. Mas um engajamento de princípios, uma ética de princípios. Se o Brasil aplicasse na política a ética que aplicou no esforço para fazer as Olimpíadas, seria um país muito melhor.

Artigo publicado originalmente no blog do Noblat.