Vitórias costumam ser vencidas na véspera. Derrotas também são costuradas nos dias imediatamente anteriores ao confronto. As Olimpíadas do Rio estavam consagradas como o desastre anunciado, recheado de assaltos, agressões, desorganização e obras inacabadas. Ocorreu o contrário. O carioca gostou da festa, promoveu farras coletivas parecidas com carnaval e colocou estrangeiros de joelhos diante da novidade. Tempo bom, praia, mulheres lindas, a vila olímpica transformou-se no momento efervescente do congraçamento internacional. Nada se assemelha ao que ocorreu ali.

No lado de fora da Vila, estrangeiros e nacionais também correram para a confraternização. E para os novos espaços abertos pelo prefeito Eduardo Paes. Ele é responsável por uma profunda transformação urbana. Mudou a cara da cidade, revitalizou o centro e levou o metrô até a Barra da Tijuca. Dezenas de prédios (31) constituíram a vila dos atletas, belíssimas arenas receberam os jogos. E o futebol desfilou pelo país. A exposição mundial do Brasil e particularmente do Rio na mídia internacional foi algo espantoso. Neste quesito o Brasil, do século 21, entrou para a história do esporte pela porta da Copa do Mundo e a das Olimpíadas. E se consagrou.

Não se deve praguejar contra as oportunidades perdidas. Mas os Jogos poderiam ter sido realizados em Brasília no ano 2.000. Havia um bom planejamento para desenvolver o projeto olímpico. Os jogos seriam realizados em arenas localizadas onde estão hoje os prédios no setor noroeste. A cidade teria ganho visibilidade, forte fluxo de turismo e respeito internacional. Na época, em 1992, o projeto foi torpedeado por muitos interesses. Perdeu, no último estágio, para Sydney, Austrália. Os cariocas receberam alguns técnicos que trabalharam no projeto Brasília 2000 e também aprenderam com erros daqui para realizar o projeto de lá. A cidade do Rio de Janeiro havia se candidatado anteriormente. Só conseguiu a vitória quando o presidente Lula, no auge da popularidade interna e externa, se envolveu no assunto.

Neste item, o interesse do ex-presidente pelo futebol (Lula é torcedor do Corinthians) abriu a possibilidade de trazer jogos internacionais para o Brasil. Primeiro foi a Copa do Mundo. Boa parte do prometido não foi entregue pelos brasileiros. Mas depois se descobriu que a corrupção estava nos dois lados do balcão. Dirigentes da FIFA foram presos vendendo ingressos para os jogos. Em seguida na Suíça foram presos por lavagem de dinheiro e outras ilegalidades. Agora, de novo, dirigentes do Comitê Olímpico Internacional também foram presos por malfeitos na arte de vender ingressos. Em bom português: eles alimentam a rede de cambistas. E ganham muito dinheiro.

Corrupção, portanto, também deixou de ser entendida como uma prática brasileira. É universal. Os senhores do esporte ganham rios de dinheiro com as suas promoções internacionais que atraem as atenções de espectadores de todo o mundo. Técnicos no assunto estimam que os jogos olímpicos do Rio de Janeiro foram assistidos por cinco bilhões de pessoas. O fluxo turístico vem depois. As paisagens ficam no inconsciente das pessoas. E nas primeiras férias as pessoas querem conferir pessoalmente aquilo que a televisão exibiu.

Houve ação política em 1992 para que Brasília não recebesse os Jogos Olímpicos. Houve, depois, ação política para que o Rio de Janeiro os sediasse. Entre uma situação e outra passaram presidentes, mudou o Congresso, emergiram novas lideranças e o Partido dos Trabalhadores alcançou seu momento de glória. Chegou ao auge. Tempos depois, já na descendente, no início da Copa das Confederações, Dilma Rousseff foi impiedosamente vaiada ao lado do também vaiado Joseph Blatter. Ele perdeu o cargo e o emprego. Ela deverá perder a presidência na próxima semana e ter direitos políticos cassados por oito anos. Assim como Blatter, ela vai sair de cena.

Dilma Rousseff demorou muito para divulgar o texto de sua carta aos brasileiros e especialmente aos senadores. Ela admitiu alguns pecados, disse que recentemente se aproximou do povo e ouviu críticas à sua administração. Estará, portanto, mais sensível às reivindicações populares se for recolocada no cargo. É tarde. Ela faz como seu colega de infortúnio, Blatter, que renunciou, mas prorrogou sua permanência no cargo além do limite da paciência de seus colegas. Caiu antes, ao lado de seu colega, Jerôme Valcke, também acusado de corrupção, que havia dito que o Brasil precisava levar um pontapé no traseiro.

Nestes tempos olímpicos, será oportuno observar o desempenho da presidente Dilma Rousseff na tribuna do Senado Federal. Ela pretende se defender das acusações que resultaram no processo de impeachment. Muita gente se consagrou naquele espaço. Mário Covas, Tancredo Neves, Itamar Franco, Severo Gomes, Teotônio Villela, Fernando Henrique Cardoso, entre outros. Não é fácil falar ao Senado da República. É para profissionais.