O que há de mais relevante, do ponto de vista estratégico, na atual conjuntura nacional?

Para alguns analistas, sobretudo os mais otimistas, há sinais de que o País chegou ao fundo do poço, sua trajetória agora será a gradativa recuperação. Para outros, as pequenas luzes não passam de relampejos de vagalumes no meio do túnel. Ou seja, a conjuntura nacional continua marcada por uma imensa incerteza em seus desdobramentos. Sairemos da crise mantendo as velhas estruturais ou aproveitaremos a oportunidade da crise, para as mudarmos? A incerteza não é novidade quando se fala de futuro, pois esta é sua residência preferencial, mas atualmente este aspecto é exacerbado por dois fatores específicos.

O primeiro fator que nos exacerba a incerteza é a profunda crise que vive o País, sem igual em sua trajetória republicana e de múltiplas dimensões. O seu nó górdio é a crise política, a profunda descrença da população no(s) governo(s), nos políticos e seus partidos.

O segundo fator é a variável Operação Lava Jato e correlatas, que por meio de delações premiadas tem revelado ao País a face oculta da política. A sociedade não conhece, ainda, o conteúdo das delações premiadas em curso ou a serem feitas. E não se sabe ainda de suas consequências sobre o mundo da política. Três ministros do governo interino saíram, sob fortes suspeitas e denúncias de apropriação indevida de recursos públicos. Ministros do governo anterior são também investigados. Vários empresários, operadores, tesoureiros e ex-parlamentares estão presos.

A marca mais visível da conjuntura nacional são os processos de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, e, secundariamente, o da cassação do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Contudo, ambos são, como se diz no popular, favas contadas.

Na verdade, o traço mais relevante da conjuntura nacional reflete-se nos sinais de fortalecimento da frente pelo desmonte do combate à corrupção, ou seja, do desmonte da Lava Jato. É uma frente que reúne próceres dos partidos políticos mais atingidos pelas investigações (PT, PMDB e PP, PSDB, PSB, PDT) e que apesar de suas enormes diferenças unem-se para desmontar a operação. Os sinais deste traço?

No Executivo, o deslocamento de policiais da PF que estavam a frente da investigação, como Erika Marena, entre outros. O mínimo que se pode inferir é que esta ação visa enfraquecer as investigações, substituindo policiais experientes por outros de menor experiência.

No Senado, o seu presidente retirou da gaveta e colocou em discussão uma lei que, sob o argumento de evitar abuso das autoridades públicas e particularmente da Polícia Federal (PF) e Ministério Público (MP), tenta restringir a ação investigatória.

Na Câmara dos Deputados as 10 propostas de lei do MP, com assinatura de milhares de brasileiros, são colocadas em Banho Maria. Promete, o novo presidente, que ela será votada até dezembro. Será?

No Judiciário, juízes e instâncias superiores começam a liberar empresários e políticos presos, sem argumentação substantiva.

Esses são alguns dos sinais visíveis e públicos. Fala-se nos corredores do Congresso Nacional de outras medidas para paralisar e destruir as investigações. Medidas que contam, sobretudo, com o cansaço da opinião pública e da sociedade, cansadas dos malfeitos públicos, saturadas com os partidos políticos e desesperançadas de mudanças substantivas.

Caso vençam, o País volta atrás, no eterno compromisso com o passado e desdém com o futuro.