João Antônio Bernardi Filho, na época, executivo da Odebrecht, foi encarregado em 2011 de entregar cem mil reais ao então poderoso diretor da Petrobras, Renato Duque. A sede da empresa fica no centro do Rio de Janeiro, um prédio esquisito, considerado modernista. Situado nas proximidades do Largo da Carioca, é local de muito movimento. As pessoas andam a pé naquela área. São multidões. O portador do dinheiro, ao vivo, transitou por ali e naturalmente foi aliviado. Perdeu tudo. Ganhou experiência.

Não conseguiu registrar o boletim de ocorrência na polícia porque o dinheiro tinha origem escusa. Era propina, ou parte dela, destinada a cobrir uma emergência do diretor da Petrobras. As propinas se contam aos milhões. Essa era um troco. O ladrão tirou a sorte grande. Os policiais federais riram muito quando o indiciado, justamente o portador do dinheiro, narrou o episódio. Vladimir Netto, em seu importante Lava-Jato, o juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, (Primeira Pessoa), menciona o fato e sublinha o humor dos federais ao tomar conhecimento do ocorrido.

A cena apenas reforça um mistério que se esconde atrás do forte noticiário em torno das apurações das seguidas fases da Operação Lava-Jato. Até agora já foram admitidos 66 acordos de colaboração premiada, sendo 61 delações de pessoas físicas, cinco de leniência e um Termo de Ajustamento de Conduta com pessoas jurídicas. Nesse período, o número de condenações atingiu cerca de 1.150 anos de pena para os envolvidos nos crimes investigados. Em termos de investigação, nas 32 fases realizadas foram executados 643 mandados de busca e apreensão, 175 de condução coercitiva e 171 prisões entre preventivas, temporárias e flagrantes.

Convenhamos que a Operação Lava-Jato, que começou com uma discreta investigação da ação de doleiro em posto de gasolina em Brasília, foi muito além da Taprobana. Passou dos limites, mesmo os mais delirantes traçados por algum diletante. Os resultados estão contidos nestes números avassaladores. Mas ninguém explicou como foi possível fazer transitar o dinheiro pelos canais habituais para fazer as propinas chegarem a bancos situados em paraísos fiscais espalhados pelo mundo. A chamada lavagem de dinheiro é uma designação genérica que não explica nada. Ao contrário, dificulta a compreensão do assunto.

Só é possível remeter e receber dinheiro por intermédio dos canais existentes. Ou seja, as instituições financeiras. Os bancos. Ninguém se arrisca a andar com cem mil reais numa cidade grande. Muito menos vai ousar embarcar em vôo internacional com milhares de euros ou dólares colados no corpo, na cueca ou na calcinha. Muita gente já foi presa tentando viajar com fortunas. Não dá certo. O risco é enorme. Mais fácil é ter uma boa conversa com o gerente ou diretor de instituição financeira, pagar as taxas solicitadas e descobrir a maneira de depositar aqui e retirar o dinheiro na ponta da linha, no exterior.

Quem for, por exemplo, as ilhas Cayman vai perceber que existe no mercado financeiro algo além do enunciado pelas magníficas peças publicitárias. Na minúscula ilha do Caribe, existem praias lindas, horizontes maravilhosos e apenas duas ruas movimentadas. Nelas estão representadas as principais grifes do mundo. O que é há de importante, caro e sofisticado está lá. E os bancos também, mas são pequenos, pouco mais que duas ou três portas. Não há clientes. Eles passam rapidamente pela cidade, em vôos especiais, compram o que querem, movimentam suas contas e vão embora. Ficar lá não é uma boa opção.

Quem não anda, fisicamente, pelo paraíso fiscal opera pela internet. Aqui ou no exterior. É fácil. Basta entrar na conexão com o número do banco e realizar a transferência. O problema é driblar a Receita Federal e a Polícia Federal. Por essa razão, os caminhos têm que ser mais dissimulados, discretos e cheios de manhas. Um grande banco, que recentemente deixou de operar no Brasil, foi acusado nos Estados Unidos de ter uma contabilidade sigilosa que incluía grandes clientes. O assunto ganhou manchetes e rapidamente desapareceu do noticiário. Aqui e lá.

Esse é o capítulo que ainda não foi desvendado pela Polícia Federal. O notório doleiro Alberto Youssef é condenado, em diversos processos, por lavagem de dinheiro. Ele não é acusado de desviar recursos públicos. As acusações a ele dizem respeito apenas a seu trabalho de remeter enormes quantias para o exterior sem que as autoridades brasileiras sejam avisadas, ou sequer percebam. Alguém precisa explicar qual é a responsabilidade do sistema financeiro brasileiro. As investigações não chegam ao centro da questão. Sugere má fé cínica ou obtusidade córnea.