O FLIP se encerrou no domingo passado, 3, sem deixar de ser tocada pela crise, na redução do público e da presença de celebridades. Uma das mais marcantes foi, sem dúvida, a de Svetlana Aleksiévitch, a jornalista que se recusa a apenas transmitir informações “banais” para “escutar o ser humano, seus sofrimentos e esperanças”, conforme as suas palavras em entrevista no evento literário. E isto ela o fez transformando os depoimentos das vítimas de Tchernóbil em livro – As vozes de Tchernóbil. A história do desastre nuclear, publicado este ano pela Cia das letras. A autora nasceu na Ucrânia, terra de sua mãe, mas foi criada na Bielorrússia, terra de seu pai. Ambos os territórios, em 1986, pertencentes a União Soviética.

 

O desastre nuclear ocorrido em 26 de abril de 1986, há trinta anos, embora esteja na Ucrânia atingiu, sobretudo, a vizinha Bielorrússia, na época Bielorus. Cerca de 70% da radiação da Central Nuclear de Tchernóbil recaiu sobre a Bielorrússia que teve 23% do seu território contaminado, onde viviam, ainda em 1996, dez anos depois, 2 milhões e cem mil pessoas, das quais 700 mil crianças.

 

Antes do desastre nuclear havia 82 casos de doenças oncológicas para cada 100 mil habitantes na Bielorrússia, em 2005 constava-se 6 mil doentes para os mesmos 100 mil habitantes. A mortalidade entre 1996-2006 cresceu 23%. Hoje, de cada dez pessoas das zonas mais contaminadas sete estão doentes.

 

O governo soviético da época enviou soldados para conter o desastre, praticamente sem qualquer cuidado, e sem preveni-los do mal que iriam enfrentar. Ficaram doentes, enlouqueceram ou morreram. Milhares. Uma enorme e desnecessária mortandade escondida pelo regime soviético, que, como sói acontecer com regimes autoritários, tentou deixar o desastre sobre uma fumaça de silêncio.

 

Não é um livro fácil de ler, o clássico de Aleksiévitch que lhe rendeu o prêmio Nobel em literatura o ano passado. Dedicado a escutar e registrar os mais diversos tipos de pessoas atingidas pelo desastre nuclear de Tchernórbil, desde os “liquidadores”, aqueles responsáveis em consertar a usina para conter a emissão de radioatividade e eliminar o máximo de pontos saturados (construções, animais, plantações), até as crianças das regiões mais comprometidas. São depoimentos de indignação, sofrimento, incompreensão e amor, muito amor. Mas é, sobretudo, um livro de dores, muitas, e expressas de mil formas distintas. O leitor é obrigado a parar, por momentos, respirar, e olhar pela janela para ver se o mundo continua como antes. E fica duvidando se de fato o é. Pois, como diz a autora: “Ingressamos num mundo opaco, onde o mal não dá explicações, não se revela e não conhece leis”.

 

O desastre atômico não apenas mata e adoece as pessoas, mas aos sobreviventes rouba-lhe a identidade: “Antes éramos bielorrussos, ucranianos, russos, hoje somos o povo de Tchernóbil, e uma só coisa interessa: a que distância do reator você vivia? “

 

A estória mais dura é a de Liudmila Ignátienko esposa de um “liquidador”. Ela acompanha o marido em toda parte, enfrenta e vence a burocracia e o controle soviético no hospital para estar ao seu lado e que morre aos poucos, diante de seus olhos e do filho que tem no ventre. Mas há outras, muitas outras dolorosas, como a da professora Nina Konstatinovna: “Eu ensino literatura russa a crianças que não são mais as mesmas de dez anos atrás. As de hoje assistem constantemente coisas e pessoas serem enterradas. Cobertas pela terra. Pessoas conhecidas. Casas, árvores. Tudo enterrado. Não há nada que as surpreenda, que as alegre. Estão sempre sonolentas, cansadas. O rosto pálido, cinzento. Não brincam e não brigam por nada. Não se zangam, porque elas não parecem crianças”.

 

O paradoxo é que o desastre mortífero de Tchernóbil tornou-se ponto de turismo. “A Secretaria de Turismo de Kiev oferece viagens turísticas a Tchernóbil. Foi elaborado um itinerário que começa na cidade morta de Pripiat. ….A cereja do bolo é a visita ao ‘Abrigo’, construção que recobre o reator” que explodiu, denominado popularmente de sarcófago, e que ainda respira pelas suas frestas.

 

No final, ficamos tentados a dar razão a mulher Bielorrússia, habitante da zona contaminada, que se pergunta: “Por acaso há algo mais pavoroso que o homem”?