Vargas Llosa narra em seu magnífico A guerra no fim do mundo, lançado no Brasil em 1984, uma briga de morte entre dois jagunços que disputavam o privilégio de matar um estrangeiro, justamente o narrador da controvérsia. Eles amarram as fraldas das camisas e se esfaquearam reciprocamente. Naturalmente, ninguém vence. Os dois morrem. O livro descreve a história da Guerra de Canudos e mergulha nos elementos retirados do clássico, Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Vargas Llosa andou pelo interior da Bahia, conversou com pessoas, ouviu histórias, mergulhou no acervo do jornal do jornal O Estado de S. Paulo – Euclides da Cunha era repórter daquele periódico – e foi até a Washington pesquisar na biblioteca do Congresso dos Estados Unidos sobre este formidável conflito que desafiou a jovem República brasileira. Só no terceiro ataque, Canudos capitulou. Na verdade, a pequena vila foi arrasada. Mas os inssurretos mataram o coronel Cerqueira Cesar, que comandava as tropas do Exército.

O autor revelou essa modalidade de briga pessoal. Os dois se amarram e se atacam impiedosamente. Normalmente, morrem. Mas, a honra está salva. Conto essa história porque não sei se a vida imita a arte ou vice versa. Mas Dilma Rousseff e Eduardo Cunha tiveram seus destinos amrrados um ao outro. O deputado carioca, 57 anos, é um negociador frio, que soube enriquecer no exercício da atividade política. Os sucessivos inquéritos que correm contra ele na Justiça demonstram à saciedade sua maneira de operar a política e a contabilidade.

A presidente afastada, 69 anos, possuia um leque mais pobre de iniciativas. Ela aparentemente não estava preparada para o exercício do mais alto cargo administrativo do país. Não conhecia os meandros da política, não soube medir seus riscos e se aventurou pelo perigoso caminho voluntarista. Seu governo foi um desastre total. O pior da República brasileira. Não alcançou nenhum dos objetivos pretendidos, mesmo porque eles eram difusos e mal definidos. Restou a ela escolher inimigos. E um deles foi precisamente Eduardo Cunha.

Cunha, por sua vez, fez carreira enfrentando adversários e dobrando suas apostas. Rompeu com o governo e colocou na ordem do dia o pedido de impeachment do presidente da República. O desenvolver da crise é fartamente conhecido. A presidente afastada está isolada no Palácio da Alvorada. Seus amigos estão se distanciando, os argumentos estão rareando e ela, lentamente, começa a transportar seus pertences pessoais para Porto Alegre, onde reside. O processo de impedimento deverá ser apreciado pelo plenário do Senado na última semana de agosto.

Eduardo Cunha foi, de recuo em recuo, caminhando em direção à sua própria renúncia. Derradeiro capítulo na tentativa de escapar da cassação. Parece sentença proferida. Mas sempre caberá a ele promover o último ato em sua própria defesa e na proteção dos familiares. A crise brasileira está entrando nos moldes tradicionais. Os dois opositores se agrediram reciprocamente e encontraram o seu fim. No Brasil, os políticos morrem várias vezes. Veja-se o ex-presidente Collor, que perdeu a presidência, é hoje um operoso senador da República.

Do ponto de vista do governo Temer, o desfecho lhe é altamente favorável. A crise Eduardo Cunha deixa de contaminar a Câmara dos Deputados. Passa a ser um assunto pessoal do ex-presidente. Será cassado pelo Congresso ou pelo Supremo? Seu destino não interfere na política nacional e libera a instituição para viver sua vida, votar o que for necessário e virar a página na política nacional. Os debates sobre sua sucessão fazem parte da atividade parlamentar. O grupo chamado de centrão, reprodução do que ocorreu ao tempo da Assembléia Constituinte, deve apresentar o nome de Rogério Rosso (PSB-DF) como candidato.

Rosso é um personagem curioso. Ele veio da iniciativa privada. Trabalhou na Fiat. Foi administrador de Ceilândia e no governo Arruda transformu-se em presidente da Codeplan. Foi governador do Distrito Federal naquele mandato tampão, depois que Arruda dixou o governo. Roqueiro, em pleno mandato foi para a Alemanha tocar em festival de música. Ele tentou se recandidatar ao cargo pelo PMDB. E não conseguiu. Passou o tempo, ele morreu uma vez, e ressurgiu como deputado federal. Sua boa atuação na comissão do impeachhment na Câmara proporcionou uma avenida de oportunidades à sua frente.

Os neogovernistas têm suas pretensôes. Uma delas se chama Heráclito Fortes (PSB-PI), experiente parlamentar que está no congresso Nacional desde os tempos de Ulysses Guimarães de quem foi amigo e discípulo. Outros candidatos surgirão. A poeira provocada por estes movimentos na próxima semana tenderá a embaralhar os movimentos na política. Cunha caminha para seu destino e Dilma para Porto Alegre. Um amarrou seu horizonte na possibilidade do outro. Os dois morreram. O governo Temer aparentemente se salvou.