É lugar comum, mas uma imagem poderosa, afirmar que brasileiros votam com a mão no bolso. Conseguimos fazer vista grossa a pecados que seriam imperdoáveis em outras democracias, desde que a economia vá bem. Ignoramos por completo o mensalão e reelegemos, com folga, o ex-presidente Lula em 2006. Ideologicamente, somos um país absolutamente flexível. O único ponto de convergência é que, em geral, ricos ou pobres gostamos de um estado presente.

A mistura da falta de ideologias claras e partidos fortes com a imensa fragmentação política cria uma característica peculiar: ficar em cima do muro muitas vezes faz bem e permite margem de manobra para mudar de lado e capturar apoio e votos em diversos pontos da sociedade.

Lula só conquistou o que conquistou quando deixou de ser Lula. Ao abandonar a imagem de sindicalista, finalmente rompeu seu teto de votos. Percebeu que ideologia em excesso atrapalharia sua corrida à Presidência. Derrubou a barreira eleitoral do PT ao abraçar o establishment, conversar com os representantes do PIB e moderar o tom. Eleito presidente conseguiu formar alianças com Deus e o diabo justamente por ser pragmático. Criou uma narrativa na qual a bolsa-família e bolsa-BNDES caminhavam lado a lado sem antagonismo. Dialogava com o MST e a CUT com a mesma desenvoltura com a qual recebia investidores internacionais no Planalto. Ninguém tinha medo de Lula.

A presidente afastada Dilma Rousseff, provavelmente a mais ideológica e fechada presidente que já tivemos, fez o caminho inverso. Cometeu o grave pecado de cultivar inimigos. Justamente no Brasil. Nossas jabuticabas não permitem tal comportamento. Somos um país frágil, sensível, tanto na política quanto na economia. O presidencialismo de coalizão não perdoa. Na economia, precisamos, principalmente nos tempos atuais, de investidores nacionais e internacionais confiantes, que se sintam seguros ao depositar seus recursos no país. No ano passado, o IED (Investimento Estrangeiro Direto) cresceu 38% no mundo, mas diminuiu no Brasil. Perdemos quatro posições no ranking de investimentos recebidos. É imperdoável.

Converso diariamente com investidores internacionais. Gostam do Brasil. Ao contrário de outros emergentes como China, Turquia, África do Sul ou Índia, somos relativamente fáceis de compreender, temos instituições sólidas, uma população que gosta de consumir, um empresariado preparado e internacionalizado, um sistema bancário moderno e forte, tensões sociais reduzidas e uma democracia que, apesar de turbulenta e confusa, funciona e está protegida. Mas mesmo com todas essas vantagens, a confiança e o volume de investimentos diminuiu drasticamente. O investidor de lá e o de cá perderam a confiança que tinham em Dilma. Tanto por sua ideologia quanto por seu comportamento.

Ao se trancar no Planalto com assessores e ministros que pensavam como ela, distanciou-se daqueles que podiam alavancar a economia. Ao ignorar pleitos de empresários e investidores, afugentou dólares, libras, euros e reais que cairiam muitíssimo bem, principalmente em tempos de baixa nos preços dos commodities. Pior: antagonizou o investidor e o capitalismo como se fossem inimigos daqueles que mais precisam do estado. Não são. É sim dever e prioridade de um presidente olhar para aqueles que mais precisam, como os mais pobres, desassistidos e minorias. É preciso manter e aprimorar as importantíssimas conquistas sociais dos últimos anos. Mas priorizar não significa ter que escolher entre um e outro. Há espaço para políticas e conquistas sociais e para o investidor.

Dilma, já aos 47 do segundo tempo, por instinto de sobrevivência, resolveu deixar de lado um pouco a ideologia que carregou por anos. Pressionada por resultados e com o navio quase afundando, buscou uma conversa mais fluida com o mercado e nomeou, com brutal atraso, Joaquim Levy para a Fazenda. Mas não o empoderou. Levy não conseguiu imprimir seu ritmo. Faltava-lhe a certeza de que tinha autonomia total. Ora estava acima de Nelson Barbosa, então ministro do Planejamento, ora abaixo. Dormia forte, acordava sem moral.

Desde que assumiu a presidência interina, em 12 de maio de 2016, Michel Temer tem tomado uma série de medidas que revertem a mentalidade que Dilma instalou durante cinco anos e meio à frente do Brasil. Imprimiu em seu gabinete uma velocidade de mercado. Pragmático e experiente, entendeu que é justamente onde Dilma se fechou que está a chance de retomar as rédeas da economia. As nomeações de Henrique Meirelles, Mansueto Almeida, Pedro Parente e Maria Sílvia serviram para, de início, retomar a atenção e a confiança do mercado. Em pouco mais de um mês Temer conseguiu aprovar medidas concretas e emitiu sinais que animaram o empresariado, pois têm potencial de atrair de volta ao país investidores de grande porte.

A primeira delas, no dia 25 de maio, serviu de base: a nova meta fiscal, prevendo déficit de 170 bilhões de reais. Logo depois, em 7 de junho, o governo conseguiu aprovar a DRU, em 2º turno. As mais importantes vieram nos últimos dias. Em 21 de junho a Câmara aprovou a MP 714/2016, sobre participação estrangeira nas empresas de aviação civil. A MP original, assinada pela presidente afastada Dilma, previa aumento de 20% para 49%, um avanço considerável. Emenda governista elevou o percentual para 100%. No dia 22 outra decisão que animou o mercado: no Senado passou o projeto de lei com regras para a nomeação de dirigentes de estatais.

Agora o governo prepara mudanças no setor de petróleo, apoiando projeto de lei originado no Senado, de autoria do senador e hoje Ministro de Relações Exteriores José Serra, que retira da Petrobras a obrigatoriedade de participar, como operadora única e com 30%, de todas as explorações de áreas do pré-sal. A preferência da estatal, no entanto, será mantida. O novo presidente da empresa, Pedro Parente, elogiou a medida.

Para sobreviver, o presidente interino precisará conviver com a instabilidade atômica da Lava-Jato. Para ser um sucesso, terá que adicionar outro ingrediente: habilidade política para aprovar uma agenda econômica necessária e muitas vezes impopular, como já está fazendo. Para vencer a desconfiança da população, mais um avanço: resultados econômicos e sociais aliados à uma narrativa e ágil e proativa. Afinal, a festa não pode ser, nem parecer ser, apenas no andar de cima.

*Artigo publicado no aplicativo da Exame