Uma das possíveis sínteses do primeiro mês do governo do presidente Michel Temer (PMDB), o interino, indica que ele acerta na economia (pela escolha da equipe) e erra na política (pela equipe escolhida). Como naquelas opções em questões de vestibulares, a resposta é “nenhuma das alternativas anteriores”.

Primeiro, por que trinta dias é tempo insuficiente para uma avaliação consentânea. Sobretudo em se tratando de um interino, portanto, com poderes tolhidos pela indefinição do poder, pois caberá ao Senado, provavelmente em agosto, dizer se ele assumirá em definitivo a presidência da República.

Na economia, onde o presidente tem colhido as melhores avaliações, falta o mais importante: números favoráveis. Desde que Dilma Rousseff (PT), a afastada, reelegeu-se presidente da República, com o apoio decisivo do PMDB de Temer, em 2014, o país experimenta a maior série histórica de indicadores negativos.

Desemprego crescente, inflação a galope, desinvestimentos recordes, taxa de juros proibitiva – enfim, recessão. A confluência de todos esses revesses com os malfeitos perpetrados por políticos mergulhou os cidadãos no pessimismo em relação ao futuro e descrença na política.

À chegada de Temer sobreveio uma interrogação, e parte da sociedade parou para vê-lo presidir o Brasil. Uma pálida melhora nas expectativas, mas, sem elas, nenhuma sociedade avança. Caberá à equipe econômica produzir números que sinalizem que o País parou de afundar.

Temer, portanto, acertou na escolha da equipe econômica que, até aqui, conta com o apoio presidencial. De concreto, porém, ele não dispõe de nenhum indicador positivo para chamar de seu.

Não houve tempo? Eis um requinte de que Temer não dispõe. Dilma consumiu-o todo.

 

Governabilidade manietada

Erra, então, o interino ao nomear ministros próceres do Parlamento, atolado no lodaçal? Não por completo, pois escassas são as alternativas de governabilidade.

Em nossa pulverizada democracia, o poder é manietado pela multiplicidade de siglas partidárias. Considerando-se que a maioria delas são amontoados de interesses difusos e, muitas vezes, mesquinhos, mesmo mandatários bem avaliados encontram obstáculos para aprovar seus projetos.

Temer, como ele mesmo admitiu numa entrevista ao Fantástico, da TV Globo, carece de aprovação. “Reconheço que [agora] não tenho esta inserção popular”, disse, com os dois pés nos assoalhos do Palácio do Jaburu, onde foi abordado pela jornalista Sônia Bridi.

À impopularidade do noviço – já rastreada por pesquisa de opinião nacional – soma-se a interinidade, aspecto decisivo que permeia todas as ações do mandatário. Enquanto ele depender da Câmara Alta para se aboletar definitivamente na cadeira presidencial, suas ações estarão limitadas.

Resta, assim, que Temer adotou o pragmatismo político em seus primeiros trinta dias de governo. Qual seja atender os desejos dos parlamentares, desde que aprovem as medidas para inverter a espiral descendente da economia.

Para respaldar as iniciativas da equipe econômica, representada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o presidente atua na seara que conhece, a política. Manejar esta para atender aquela. Qual um tropeiro que tange o gado, enquanto outro peão segue à frente abrindo as porteiras.

 

Lembra-te de desconfiar

Em que pese sua reconhecida habilidade política, da qual a antecessora é desprovida, Temer tornou-se protagonista em cenário ímpar, onde a imprevisibilidade esbarra no voluntarismo da operação Lava-Jato, conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Por isso, deve cercar-se de dose extra de cautela.

Diante dos reveses já enfrentados pelo interino, por conta da convivência com aliados encrencados, como o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), oportuno recorrer a lições sacramentadas pelo tempo. Uma delas resume-se numa parêmia do século XIX: “Lembra-te de desconfiar“.

A divisa foi adotada por Prosper Mérimée, arqueólogo e escritor francês, mais conhecido pela novela Carmen, que o conterrâneo George Bizet transformou em ópera. Mérimée adotou o provérbio com tamanha convicção que o levava num anel, onde a frase foi engastada em grego, um dos idiomas que conhecia.

Assim como a escolha da equipe, as proposições legais igualmente merecem exame adicional. Diante da penúria do erário e da beligerância que cindiu as ruas pode ser temerário abraçar todas as reformas (economia, saúde, educação, previdência, trabalho, infraestrutura), como sugerem as manifestações presidenciais e de sua equipe.

Afinal, nada indica que o Brasil vá acabar em 2018, quando finda o atual mandato. Além disso, as propostas não devem se afastar do que foi sufragado pelos eleitores em 2014.

 

“Bom, agora vai”

A receita para a governança bem-sucedida em tempos de crise pode estar na própria retórica temerista. Em entrevistas e pronunciamentos, o presidente assumiu compromissos aparentemente singelos, como colocar “o país na rota do crescimento” e “pacificá-lo” (SBT).

Acrescentou, noutra oportunidade, ao jornalista Kennedy Alencar, do SBT: “entregar [em 2018] um país equilibrado, um país, digamos assim, nos trilhos”, para “que as pessoas possam dizer: bom, agora vai”. Metas aparentemente despretensiosas, mas que podem garantir-lhe proeminência histórica.

Para chegar lá – sair da recessão e serenar os ânimos agastados da cidadania -, a parêmia de Mérimée pode lhe ser útil. Primeiro, pesar se o aliado é confiável. Segundo, reavaliar a avidez legiferante de seu governo.

Prudente, assim, confiar na temperança e concentrar sua administração no retorno do Brasil à “normalidade” experimentada nos governos dos três presidentes que antecederam a afastada Dilma Rousseff. E lembrar que, se o Senado deixar, terá apenas dois anos e meio para executar a tarefa.