Durante os últimos 12 anos, a oposição liderada pelo PSDB atuou para desgastar o governo petista atacando a sua política externa, considerada excessivamente ideológica. Tanto na Câmara dos Deputados como no Senado Federal, foram inúmeros os eventos que marcaram essa estratégia, embora o ministério de Relações Exteriores como instituição tenha sido relativamente poupado.

O Protocolo de Adesão da Venezuela ao MERCOSUL, por exemplo, tardou mais de três anos para ser ratificado. Tudo por razões políticas. Ao negar o ingresso venezuelano ao bloco sul-americano, a oposição da época acreditava fragilizar uma política cujas orientações e determinações não saíam mais do Palácio Itamaraty, mas da assessoria internacional da Presidência da República, chefiada por Marco Aurélio Garcia.

Havia o entendimento de que essa chancelaria paralela desidratava cada vez mais o ministério de Relações Exteriores como formulador e executor da política externa. A expansão dos postos brasileiros no exterior também foi objeto de críticas assim como o perdão de dívidas de países africanos governados por ditaduras. O desembolso de recursos do BNDES para obras em Cuba, Nicarágua, Equador, Venezuela e outros, classificado como secreto, também foi motivo de reações duras contra o governo da presidente afastada. Estes são alguns exemplos de temas que colocaram governo e oposição em campos opostos quando a política externa deveria ser uma política de Estado.

No entanto, os diplomatas brasileiros, incluindo a maioria dos ministros que nesse período comandaram o Itamaraty, foram preservados. Não havia a intenção de manchar uma corporação cuja excelência sempre fora reconhecida interna e externamente.

Com a posse de José Serra, muda tudo. Quem era oposição vira governo e vice-versa. Quem era vidraça, agora atira pedras. E as diferenças não param por aí. A nova oposição tem um alvo, claro e objetivo: o ministro. Serra está na alça de mira da política interna.

PT e seus aliados não descansarão enquanto não abaterem Serra. Por quê?

José Serra vinha sendo a noiva cobiçada pelo PMDB para disputar a presidência da República em 2018. Foi por diversas vezes encorajado a deixar o ninho tucano e ingressar nas hostes do maior partido político do Brasil.

Michel Temer, ainda vice-presidente e no comando da sigla, entendia que Serra teria pouca margem de manobra no PSDB, onde o senador Aécio Neves (MG) e o governador Geraldo Alckimin (SP), figuravam como potenciais candidatos.

A crise política abreviou o mandato do PT, fez de Temer o presidente da República e chamuscou, por motivos e razões distintas, tanto Neves como Alckmin. O senador mineiro é investigado a pedido da Procuradoria-Geral da República. Não se sabe como e em que condições sairá dessa situação de desgaste. O governador paulista é obrigado a lidar com escândalos de corrupção e denúncias de violência cometidas pela polícia militar. Também é provável que enfrente desgaste capaz de minar suas pretensões políticas. Isso sem contar que os tucanos não se bicam.

Trata-se de um cenário que pode ser favorável ao chanceler. Ele sabe disso e a esquerda também. José Serra poderia repetir Fernando Henrique Cardoso, o último político a comandar o ministério das Relações Exteriores. Portanto, derrubá-lo é fundamental para tentar equilibrar o jogo político em 2018. A melhor maneira de fazê-lo é por meio das comissões de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara e do Senado, atualmente presididas pelos tucanos Pedro Vilela (AL) e Aloysio Nunes (SP).

É perceptível que os antigos aliados da presidente e de Lula buscarão tumultuar a gestão do ministro. Para esse grupo, Serra é visto apenas como um político cujo projeto prioritário é ocupar o Palácio do Planalto. O PSDB tem todas as condições para neutralizar essa estratégia, mas para isso precisará de unidade e coordenação das duas comissões com o Itamaraty.