É muito grave a afirmação do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró sobre a participação da presidente afastada Dilma Rousseff na compra da refinaria de Pasadena: “Quer dizer, ela me jogou no fogo e preferiu, para [se] livrar, porque estava em época de eleição, tinha que arrumar um Cristo. Então: ‘Ah, não, eu fui enganada’. É mentira! É mentira. Dilma sabia de tudo o tempo todo”.

O trecho faz parte do depoimento para a homologação da delação de Cerveró por parte do Supremo Tribunal Federal (STF) gravado em vídeo. Vazou e foi publicado pela Folha de S.Paulo.
É a mais contundente acusação à presidente, talvez a qualquer presidente, pelo menos na história do Brasil, da qual milhares de pessoas tomaram conhecimento pelas redes sociais. Na noite da segunda-feira, dia seis, o vídeo foi exibido no Jornal Nacional, com sua audiência superior à internet.

Desconcertante não é apenas o conteúdo, mas a forma desrespeitosa com a qual Cerveró se refere à presidente, como se ela tivesse sido sua companheira de mal feitos, e a isso dedicasse parte de suas ocupações, e não a cuidar dos altos interesses do país. É chocante saber que um dos responsáveis pelos ataques mais predatórios ao patrimônio da companhia revele uma intimidade constrangedora de 15 anos de convivência com Dilma Rousseff.

O choque é ainda maior porque as palavras de Cerveró foram precedidas por uma série de entrevistas e declarações da presidente para se defender, nas quais ela professava uma honestidade acima de todos os princípios, e a respeito da qual seus aliados e o PT agregam que não se poderia contrapor a mais leve sombra de suspeita. Acima da ficção do “golpe” surfava a imagem de uma autoridade imaculada, ainda que isso se chocasse com episódios de forte inconsistência, como o marketing eleitoral inverossímil de 2014 como forma de ocultar a bomba fiscal ou a verdade por trás da “faxina ética” do início do primeiro mandato.

Se há virtude na divulgação da queixa de Cerveró contra a presidente é esta: a eloquente constatação de que a tréplica é indispensável quando uma autoridade fala. Como não faz parte de nossos costumes contestar um presidente, depois que Dilma afirmou ser inocente sobre Passadena, a última palavra ficou com ela. Sem a delação de Cerveró ficaríamos com uma só versão.

O advogado José Eduardo Cardozo queria incluir na defesa do processo de impeachment a gravação de conversas de Sérgio Machado com senadores do PMDB, sob o argumento de que ali há prova de uma conspiração. Mesmo sob protesto dos petistas, que consideram o troco inconsistente, a acusação poderia pedir que a comissão acolhesse o que Cerveró tem a dizer sobre a presidente afastada.

Seria um tiro no pé, especialidade do PT nas operações destinadas a salvar Dilma Rousseff quando ela ainda ocupava o terceiro andar do Palácio do Planalto. O plano para nomear Lula para a Casa Civil com o objetivo de protegê-lo com foro privilegiado resultou numa comédia pastelão, ato final dos 12 anos de poder do partido.