Não vale o esforço de agachar para ouvir as reclamações da política Dilma. Para a pessoa, talvez seja possível dizer que, se não souber processar o sofrimento, a tristeza ou a decepção, ficará o ressentimento, o caminho mais curto para o desespero total.

A necessidade de atormentar os outros é uma das necessidades morais da política. Está baseada na ideia de que sempre devemos, em relação aos adversários, desejar o que não pode ser oferecido.

A forma que a presidente afastada enfrenta sua dificuldade de se relacionar com as regras democráticas, e sem ver grandeza em sua infelicidade, revelam os limites de uma situação confusa. A correspondência do que faz, com a verdade, é desnecessária para ela, e está levando pessoas de bem a derrapar na mentira.

Foram inúmeros os chefes de Estado em todo o mundo e no Brasil, que em situações de crise, pessoal ou política, abriram mão do cargo para que a sociedade não sofresse mais com o desproposito que é aceitar um governante falacioso, ou que perdeu as condições de se manter, ou que não gosta do que faz. Eduardo VIII abdicou do trono inglês pelo amor de uma mulher. De Gaulle, herói de guerra, renunciou, quando se viu sozinho.

Não foi o céu, a direita, ou a malícia de um desafeto, que apontou a artilharia para Dilma, Lula e o PT. Não foi uma surpresa, um desastre instantâneo como o fogo de um incêndio. Foi dia após dia, que os petistas notórios, seus ministros mais deslumbrantes e recorrentes, pulando de um ministério para outro como tico-tico no fubá, foram frustrando a expectativa de toda uma nação diante dos costumes errados a que se vinculavam. O oceano de medidas provisórias e portarias do período, saques a descoberto nas contas públicas, o mar de subsídios injustificáveis, a gestão fraudulenta da Petrobrás, só é possível para governantes cuja conduta é indiferente a determinações legais.

E inobservadas as críticas necessárias ao comportamento de Lula diante do poder, dentro e fora do Brasil, o silencio dos diplomatas, o deslumbramento com ditadores, a ambição de construtores, as bobagens ditas em palanque, a discussão insuficiente das leis, o tédio manipulador da uniformidade das cerimonias no palácio, podemos dizer que todo o país, especialmente sua elite, é responsável pelo estrago que estamos vivendo. O que se esgotou foi a paciência do povo, quando o país percebeu que distribuir e receber favores é uma marca da vida de Lula. E não uma característica positiva de líder político indispensável.

A maior parte das ideias políticas que Dilma defende segue pontos de vista corporativos, elitistas, anti-intelectuais. Seu objetivo é arregimentar exércitos de apoiadores atendidos discricionariamente no seu período de governo. A gestão Dilma foi um voo sem motor, que o dolorismo de suas declarações tentava esconder.

Lula derrotou os petistas que não apostavam na cultura de bar, que sugere resolver todas as questões com piada, na briga ou no grito, marca típica de quem só consegue falar para quem já está convencido. Uma forma de sintonia com a economia moral da multidão de minorias – mais fácil de manejar do que classes sociais e pessoas com autonomia – que os governos do PT ajudaram a criar e estimular.

Sei que é um aparente contrassenso, numa transição barulhenta, dar uma opinião como essa ao presidente Temer, mas o governante necessário precisa correr o risco de não ter, em tudo, o mesmo ponto de vista do governado. Foi o grande erro dos governos “distributivistas” petistas. Ajustar a voz aos ambientes e situações, saísse de um velório, das bodas de um aliado, da fábrica ou de um circo.

Sei que o PT, Dilma e Lula não são o que há de pior na política. Na verdade o PT deve ao Brasil um período de silêncio. Como confundiu o povo na imensa simpatia que recebeu é hora de torcer pelo governo dos outros, se insiste em não sentir nem um pouco de remorso.