A história do Brasil é construída sobre acordos desde Dom João VI que deixou Portugal na véspera da invasão do país pelas tropas francesas comandadas pelo general Junot. Portugal não foi à guerra, Portugal mudou-se. O Rei, junto com toda a corte, viajou para o Brasil, então colônia, num comboio de dez mil embarcações sólidamente protegido pela Marinha inglesa. O Império instalou-se no Rio, mas na sua primeira parada em território sulamericano, em Salvador, Bahia, o português abriu os portos do país às nações amigas. A mais amiga delas era a Inglaterra. Começou a pagar a conta.

A Independência também foi um acordo. O Imperador teve que retornar a Lisboa por imposição dos líderes da Revolução do Porto. Pedro I aguentou durante algum tempo as bravatas lusas. Depois decidiu romper com seus patrícios. A Independência do Brasil foi proclamada por um português. Em seguida decidiu retornar a Portugal para brigar com D. Miguel, seu irmão. Deixou aqui Pedro II, brasileiro, que governou o país por quase 50 anos. Sua filha, princesa Isabel, assinou a lei áurea, libertou os escravos. O movimento liquidou com o Império e fez nascer a República, cujo primeiro presidente (o segundo também) foi militar.

Este ritual de transformações é um roteiro conhecido na política brasileira. Contém um pouco daquele velho ditado que ensina ser preciso mudar para que tudo permaneceça como sempre foi. A República Velha caiu pela liderança de Getúlio Vargas que era secretário da Fazenda do governo do Rio Grande do Sul. Comandou a revolta e contou com o apoio aberto dos tenentes que comandaram as revoluções de 1922 e 1924 e a Coluna Prestes. O antes e o depois estiveram presentes naqueles movimentos. E assim ocorre ao longo de toda a inquieta história nacional.

Os militares, no já longinquo 1964, criaram um tipo de terror parecido com o atual. Periodicamente eram divulgadas as listas de cassação de mandatos de parlamentares. Muita gente foi obrigada a fugir só com a roupa do corpo e pular o muro da embaixada mais próxima. Eles tinham a ilusão de que era possível acabar com a política. Erraram muito. A política passou para dentro dos quartéis. E os civis foram convocados a exercer trabalhos específicos em diversas áreas. Delfim Neto, que foi o mais importante ministro da Fazenda do período, é um exemplo do fenômeno. Ele, um civil, tinha tanto poder quanto um general.

O exercício da política no Brasil desbordou, depois que o Partido dos Trabalhadores se encastelou no poder, para um desabrido ataque aos cofres nacionais. O PT e seus aliados. A fórmula é parecida com a adotada pelo PRI, no México, que também atacou a petroleira estatal naquele país, a Pemex. O falecido presidente Hugo Chavez violou os cofres da PDV S.A., a petroleira da Venezuela. Nicolas Maduro está recolhendo o que restou.

Nos tempos atuais o terror é praticado por procuradores, juizes e ministros. Cada semana aparece uma nova delação e alguem importante, bem colocado na burocracia nacional, perde o cargo, a cabeça e o prestígio. A presidente Dilma Rousseff já se despediu do que tinha. Dedica-se agora a atrapalhar seu sucessor com declarações sem qualquer fundamento. Mas é o que a oposição necessita para exercitar seu discurso contra o suposto golpe. O governo Temer tem pouco a dizer. Herdou um desastre econômico de dimensões abissais.  Foi formado às pressas e ainda não encontrou seu equilíbrio.

Até que o impeachment da presidente afastada seja julgado todo o cenário ficará à deriva por força das pressões antagônicas que operam no mesmo espaço político. O senador Cristovam Buarque, do DF, afirma que está em dúvida. Não sabe como vai votar. Ele pouca vezes soube. Sempre apelou para formulações teóricas que o protegem de qualquer ação objetiva. Reguffe, sobrinho de Sérgio Machado, entrou no Senado por ação do tio. Encastelou-se na liderança do governo naquela casa, na época comandada por José Roberto Arruda. Depois de algumas hesitações, ele agora afirma que vai repetir seu voto favorável ao impeachment.

Há outros dispostos a criar dificuldades aparentemente com objetivo de vender facilidades. Este tumulto localizado se não for bem conduzido poderá construir as condições para o retorno da Dilma Rousseff à presidência. Seria o desacalabro final. E irrecorrível. São muitos os perigos atuais. Há quem enxergue até mesmo o risco de o país se fragmentar, como consequência de conflito interno. Os políticos, com suas ações egocêntricas, provincianas e pouco inspiradas, estão fazendo o país brincar no fio da navalha.