*Entrevista com o presidente da Arko Advice, Murillo de Aragão, ao jornal Correio Braziliense. Feita pelos jornalistas: Ana Dubeux, Carlos Alexandre, Denise Rothenbug e Leonardo Cavalcanti.

O cientista político Murillo de Aragão, 59 anos, observa os movimentos dos poderes para além dos muros da academia, mesmo que não se esqueça da teoria para lidar com os recentes acontecimentos na Esplanada. Advogado por formação, ele é doutor em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e preside uma das principais empresas de análises políticas do país.

Interlocutor de integrantes do Legislativo, do Executivo e do Judiciário, Aragão é um tradutor qualificado da política dos gabinetes da capital federal, para brasileiros e estrangeiros. “Quem inventou o impeachment foi a Dilma, quem deu força para o impeachment foi a Dilma, quem orientou o governo para trabalhar contra o impeachment foi a Dilma”, afirmou ele, em entrevista ao Correio* na última segunda-feira.

Para Aragão, se a presidente agora afastada tivesse se dedicado à economia como se dedicou ao impeachment, “ela talvez criaria um ambiente econômico melhor, que a blindaria para essa situação”. Hoje, ele, que ao longo de oito anos, a partir de 2007, integrou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, se diz um otimista: “Não estou pessimista. Agora, temos o governo. Antes tínhamos um amontoado de pessoas voltadas a atender à presidente Dilma com seus caprichos, e o total abandono às práticas políticas.”

Até que ponto erros iniciais podem comprometer o governo Temer?
Com relação à história de não ter mulheres, evidentemente que houve um erro, mas não foi intencional ou um que se possa atribuir ao governo Temer ou ao Michel Temer. Houve um convite para a Ellen Gracie fazer parte do governo, mas ela não aceitou.

“O maior erro que Temer pode cometer é fazer um governo para ter popularidade. Se houver uma imperícia neste momento, podemos cair em uma espiral de completa falência do modelo econômico”

Mas mesmo assim seria uma única mulher…
Não estou defendendo, mas esse governo é semiparlamentarista, cuja orientação é uma coalizão que tenha compatibilidade dentro da base política no Congresso. O espaço de escolhas dos ministros é compartilhado. Não foi uma decisão monocrática do Temer, foi uma negociação partidária.

Ele não poderia ter pedido para os partidos indicarem mulheres?
Claro, ele é o presidente. Agora, considerando a situação política do país, o carrossel de emoções que ocorreu desde a votação na Câmara até o afastamento de Dilma, é evidente que algumas coisas ficaram pelo caminho. Tenho certeza de que, se não houvesse esse problema, se o ministério tivesse duas ou três mulheres, teríamos as polêmicas das minorias ou a polêmica mais inflada da Cultura. Governar é dizer não, e não agradar a todos, você tem que escolher os inimigos. Acho que foi um erro e será corrigido.

Até que ponto pode se errar em um momento como o atual?
Neste momento, se pode errar, porque é impossível se acertar quando se tem um governo-ônibus, com 14 ou 15 partidos. Não podemos errar na área econômica, porque a economia está na UTI. Se perdermos o controle da economia, tudo mais perde sentido. Podemos entrar em uma completa desconfiança no governo, na moeda, no câmbio e no investimento. A prioridade é restabelecer a confiança econômica e fiscal, é aí que não se pode errar.

Como se resgata a economia com um deficit de quase R$ 200 bilhões?
Estão dizendo R$ 125 bilhões.

“A economia é muito mais expectativa do que realidade. Se tiver boa expectativa, cria boa realidade daqui para frente. Para isso, tem de se adotar medidas que apontem para a retomada da credibilidade”

Isso é o que o governo admite, não?
Não. O governo admitia R$ 100 bilhões, passou a R$ 125 bilhões e já estão falando que pode ser mais. Você pode dever o que for se você tem credibilidade. Dever é de segunda importância. Se um país restabelecer a credibilidade fiscal e econômica, terá recursos para a dívida. Para você dever existem duas alternativas: ou você imprime dinheiro, que é o caso dos Estados Unidos, que é a Casa da Moeda do mundo, ou você tem credibilidade, que é o caso de países como a Inglaterra. O Brasil tem uma dívida de 70% do PIB, não é o horror, não é o pior dos mundos, mas não tem credibilidade. Se restabelecermos a credibilidade, teremos recursos no país e no mundo para financiar a dívida.

Há tempo para recuperar isso?
Claro. A economia é muito mais expectativa do que realidade. Se tiver boa expectativa, cria boa realidade daqui para frente. Temos que adotar medidas que apontem para a retomada da credibilidade. O primeiro passo foi reduzir ministérios. Podem argumentar que, na prática, não tem economia, mas se reduziu o centro de decisão. A questão dos cargos de confiança também é uma boa medida.

A experiência é o corte nos comissionados, mas, logo depois, a volta do inchaço, não?
Eu acho que isso pode acontecer. A era Lula-Dilma foi um governo iceberg, que tinha uma ponta, onde o PT tinha 11 ministérios, mas, embaixo, existiam milhares de cargos de confiança e centenas em cargos de estatais. O ponto que eu acho essencial é que o político entendeu que o governo não tem mais dinheiro para fazer obra, porque tudo está sendo consumido pelo custeio. Custeio não gera política, o cara não consegue se reeleger apenas pagando salários, ele se reelege quando faz coisas. Se o Brasil fosse uma obra acabada, tudo bem, mas o Brasil tem muito a ser feito, portos, ferrovias, aeroportos, odovias, saneamento. O político quer que o Estado tenha condições de financiar obras ou que as regras permitam investimentos em parcerias público-privadas.

michel-temer-popularidade
Temer e a popularidade

Como Temer conseguirá popularidade?
O maior erro que Temer pode cometer é fazer um governo para ter popularidade agora. A soma de erros na parte econômica e fiscal é tão grande que, se houver uma imperícia neste momento, podemos cair em uma espiral de completa falência do modelo econômico. Eu tenho a impressão de que a última preocupação dele é ser popular neste momento. Se ele for por esse caminho, não vai acontecer nada.

Essa tese não vai de encontro à vaidade do político?
Eu assisti ao governo Temer viver uma crise antes de começar, quando o mundo político queria que ele continuasse com 31 ministérios. Na semana anterior, ele foi pressionado intensamente, até o último minuto, para não fazer as fusões. Ele resistiu e disse não. Se ele quiser ter um compromisso na história, ele tem que dizer não.

Ele pensa em se candidatar?
Eu acho que não.

Seria mais fácil abrir mão da popularidade e adotar medidas mais duras…
Isso, o mal tem que ser feito rápido. O grave erro da Dilma foi ela ter optado por um tratamento meio barro meio tijolo, com relação à crise. Quando você reconhece o tamanho da crise, tem que se tomar medidas duras e drásticas para depois recompor.

É possível governar sem popularidade em um Brasil como o de hoje?
É possível. No caso da reforma da Previdência, é uma batalha de comunicação. A Previdência tem um problema sério no setor privado e um problema seriíssimo no setor público. Vai ter de explicar à sociedade o que está acontecendo. É evidente que tem que se respeitar direitos, fazer regra de transição e buscar soluções para o futuro. Nunca foi fácil, mas, provavelmente, o Temer é o cara mais bem talhado entre as figuras que estão disponíveis hoje no país.

Ele fez um ministério pensando em votos no Congresso e, apesar disso, há resistência em relação à CPMF. Como vai conseguir convencer alguém em ano eleitoral?
É compatível se ter uma reforma em ano eleitoral, mas aí ele tem que estabelecer um roteiro. Primeiro tratar das decisões de alto impacto e baixo custo político, e depois as decisões de alto impacto e alto custo político. Não pode começar pelas reformas, tem que começar pelas decisões no âmbito administrativo. Tem de mostrar, ao lado do (Henrique) Meirelles (ministro da Fazenda) e (Romero) Jucá (ministro do Planejamento), condições de conter a situação fiscal pelas medidas de dentro do governo. A sociedade não aceita a CPMF porque não percebe o sacrifício na máquina pública.

Mas todo o sacrifício que se tenta fazer na máquina pública acaba em confusão…
O problema será se quem resiste não der os votos para a medida. A opção é clara: ter um governo com votos para aprovar a agenda no Congresso. Os maiores partidos são atendidos, mas o governo tem que olhar para a sua maioria e usar os poderes de compensação. Esse governo é grande demais, ficou inchado demais na era Lula-Dilma, se for minimamente competente conseguirá atender a aliados e aprovar agenda transformadora. É evidente que as reformas tributária e previdenciária necessitam de regras de transição e prazo de implementação. Não dá para fazer de uma vez. Outro ponto é tratar os bancos públicos de forma pragmática, com gestão profissional. Segundo consta, a Caixa está em grandes dificuldades, o BNDES tem uma exposição aos empréstimos que alguns dizem que é de uma qualidade muito duvidosa. Talvez o Banco do Brasil, por ter uma estrutura mais tradicional, tenha se preservado, mas existem questões muito sérias no setor público financeiro-estatal que devem ser resolvidas.

O senhor se diria otimista?
O analista político, por vício de profissão, é sempre pessimista, é muito mais fácil ser pessimista no Brasil. O custo de ser pessimista é baixo e as chances de dar errado são elevadíssimas, como disse o Roberto Campos: “O Brasil não perde a oportunidade de perder uma boa oportunidade”. Estou otimista pelo simples fato de que agora temos governo. Antes, tínhamos um amontoado de pessoas voltadas a atender a presidente Dilma com seus caprichos e o total abandono às práticas políticas. Hoje, temos um governo que vai ouvir, que já chamou as centrais sindicais, que toma decisões. Nunca vimos a presidente Dilma desautorizando um ministro, o governo era tolido, fechado, que não tinha diálogo, que não tinha vocalização com a sociedade e eu assisti a isso de dentro, eu fui integrante do Conselho do Desenvolvimento Social. Agora, temos o diálogo. Essa é a razão número um. Número dois, este governo tem base política, o mundo político está apoiando. É bom lembrar que o presidente do Brasil é o mais poderoso das democracias ocidentais, nem mesmo o Obama tem a soma de poderes que o presidente do Brasil tem. Esse presidente – que é dono do orçamento, que implementa como quer, que é dono de 50% do sistema financeiro estatal, que emprega 30 mil funcionários e que tem medidas provisórias – tem quase um poder imperial. Esse presidente perder o controle da sua base política e do país, como ela perdeu, indica uma incompetência mastodôntica. Esse presidente é, no mínimo, mais competente que a Dilma.

Não tem jeito de ele errar mais, é isso?
Não, ele pode errar, mas a capacidade de recuperação será mais rápida. O Lula disse para a Dilma, em 2013, que tinha que tirar o Mantega e colocar o Meirelles. Os erros da presidente Dilma foram cantados em verso e prosa, a destruição do governo dela estava escrita, todos sabiam que ia terminar mal.

Dilma Rousseff
Dilma é a maior culpada do impeachment.

E ela foi a culpada mesmo ou vítima?
Não, ela não foi vítima de nada, ela é a culpada número um. Ela quem destruiu o lulismo, praticamente destruiu o PT e pode ter destruído o Lula como fenômeno político. Em março de 2015, fizemos um relatório. Havia 30% de chance de impeachment de Dilma. Era uma probabilidade absurda para um governo que tinha três meses de existência. Porque o governo se atrapalhava na política e caía na armadilha do discurso, tanto é que ela disse que não teríamos um golpe à paraguaia no Brasil e depois ela negou essa frase. Quem inventou o impeachment foi a Dilma, quem deu força para o impeachment foi a Dilma, quem orientou o governo para trabalhar contra o impeachment, que foi criado por ela, foi a Dilma. Se ela tivesse dedicado o empenho que ela dedicou no impeachment para a economia, ela talvez tivesse criado um ambiente econômico melhor que a blindaria. Do contrário, ela desmoralizou o Joaquim Levy quando inventou a CPMF sem conversar com os aliados, e quando tratou, de forma irrelevante, a questão do rebaixamento.

Continue lendo a entrevista:

[PARTE 2] PT é mais eficiente como oposição do que como governo, diz Murillo de Aragão

[PARTE 3] “O político não pode mais proteger seus cúmplices”, diz Murillo de Aragão