Historiadores vão fazer malabarismos nos próximos tempos para qualificar, adjetivar e dar a devida dimensão a duas figuras da política brasileira. Roberto Jeferson, presidente do PTB, derrubou o poderoso José Dirceu da Casa Civil da presidência da República. E o derrotou no debate na Câmara dos Deputados. Os dois, abraçados, enfrentaram cassação e prisão. Mas pela primeira vez os métodos de trabalho do Partido dos Trabalhadores foram expostos à visitação pública. O julgamento do mensalão mudou a política nacional.

Jeferson não é anjo. Mas ajudou a derrubar o petismo. O outro nome de difícil julgamento é Eduardo Cunha. Frio, negociador incansável, muito bem informado, joga o jogo parlamentar com objetividade. Ele, acusado de corrupção, de mentir ao negar contas em bancos estrangeiros, e de manipular a comissão de ética, sozinho desafiou e venceu o governo federal. Colocou o impeachment em votação e foi muito bem sucedido. Os dois deputados, ambos do Rio de Janeiro, derrubaram a república petista com palavras, ação e gestos. Nenhum tiro.

Não há elogio no que exponho. Apenas verdade. Os dois, com perfis semelhantes a Calabar ou Macunaíma, reconhecidamente acusados de malfeitos, fizeram com que seus adversários fossem dissecados pela justiça. Eles perderam, mas quem a eles se opôs perdeu muito mais. O Partido dos Trabalhadores colhido pela tempestade de denúncias de corrupção não encontrou discurso para se defender. Na véspera da eleição municipal, o impeachment da presidente Dilma Rousseff é desastre maior para o partido do que para ela. A presidente já disse que tende a ser carta fora do baralho.

Quando o então presidente Lula precisou escolher seu sucessor, após dois mandatos consecutivos, ele se viu prisioneiro de uma dificuldade. Os mais preparados para o cargo eram José Dirceu e Antônio Palocci. Os dois, contudo, já estavam envolvidos em investigações da Polícia Federal e do Ministério Público. O que ele tinha a mão, na época em que estava pensando em renovar o Partido dos Trabalhadores, era o nome de uma mulher, a primeira a se candidatar à Presidência. Apostou suas fichas nesta possibilidade. Ele sabia dos problemas que seu sucessor iria enfrentar.

Melhor ter alguém ingênuo no comando para poder monitorar melhor a ação da criatura. Ele, o criador, tentou criar eficiente rede de proteção a seu redor. Assim foi feito. Mas os planos são sempre surpreendidos por eventos supervenientes. Dilma tentou afastar alguns envolvidos em malfeitos. Não conseguiu. Acordos anteriores garantiam aquelas posições para partidos alcançados pelo petrolão. A partir daí ela começou a perceber que sua relação com Lula seria diferente. E Lula também percebeu que sua criação tendia a criar asas e voar.

Voou para seus delírios nacionalistas influenciados por ideais estudantis em moda nos anos sessenta do século passado. Investiu o que tinha e não tinha nos chamados projetos sociais. Gastou além de seus limites. Precisou se socorrer de empréstimos disfarçados de bancos oficiais. Foram as pedaladas. E insistiu em se candidatar à reeleição. De novo, gastou o que podia e não podia. Escondeu a verdadeira situação econômico-financeira do país. Iniciou o segundo mandato desmentindo tudo o que havia prometido antes. Assumiu a maior recessão da economia brasileira em tempos recentes.

Mudou ministério várias vezes. Perdeu substância política, a base política de apoio do governo no Congresso se desfez. A presidente não se abalou em abrir conversas com os parlamentares. Ao contrário, fechou-se cada vez mais. E assumiu pessoalmente o conflito com Eduardo Cunha, presidente da Câmara. Jaques Wagner negociou com o então presidente da Câmara que os três deputados petistas votariam contra a instauração do processo na comissão de ética. Mas, ela também não chega a ser a favorita do PT. É um fardo muito pesado para ser carregado em tempos de eleição municipal. Os petistas votaram contra Eduardo Cunha que, por sua vez, aceitou o pedido de impeachment.

Dilma Rousseff tornou-se uma figura incômoda até mesmo para seus correligionários. A ela cabe o mesmo destino de Delcidio Amaral. Ser abandonada por seus pares. Difícil achar quem aceite aparecer ao lado da ex-presidente durante a próxima campanha eleitoral. Ela procurou seu destino. Na sua solidão desenvolveu uma espécie de autismo político. Não percebeu o que ocorria à sua volta. Mas os heróis desse capítulo tenebroso da história do Brasil são dois personagens indiciados pela justiça. É a terra de Macunaíma.