Quando Dilma Rousseff foi escolhida candidata de Lula em 2010, todos sabiam que ela era profundamente inábil politicamente. Sabiam, também, que não tinha jogo de cintura, a ponto de o deputado Henrique Eduardo Alves, então líder do PMDB, ter-lhe presenteado com um bambolê, para que praticasse.

Muitos acreditavam que Lula, seu padrinho e mentor, poderia compensar as grotescas deficiências de Dilma. Não foi o que aconteceu. A presidente consumiu o capital político do chefe e o próprio com imensa rapidez. E passou a vagar à deriva no espaço político.

Ela só não perdeu as eleições em 2014 por causa de uma campanha equivocada de Aécio Neves, mal votado em sua própria base eleitoral, Minas Gerais, e pela imensa fragilidade de Marina Silva no período da campanha em que era competitiva. Funcionou, também, a dialética do medo. Tão criticada pela esquerda e largamente empregada por ela na campanha, sob a orientação do marqueteiro João Santana. Sem falar na estratégia de negar a realidade da derrocada econômica que estava à vista desde 2013, conforme diagnóstico repetido por nove entre dez economistas formadores de opinião.

Nesta semana, de forma melancólica, Dilma Rousseff deixará o governo para não voltar. Sua saída não deixará saudades. Obviamente, aqueles milhares que foram se perpetuando em cargos de confiança vão sentir falta dos bons tempos. Muitos jamais ganharão o mesmo que recebiam em suas funções públicas e perderão o status conquistado há 13 anos. Centenas de ONGs, que também vivem penduradas nos cofres públicos, vão sentir saudades desse lugar confortável da máquina pública que desfrutaram supondo que fosse para sempre.

A imensa maioria da sociedade, porém, não sentirá saudades e, rapidamente, esquecerá a era Dilma. Para eles, a presidente já vai tarde. Seus últimos dias foram tristes, imersos em crises variadas. O mais inacreditável de tudo é que não foi por falta de aviso. Aliados avisaram que muita coisa estava errada. Os sinais de descaminho do governo já eram evidentes em 2013. A contabilidade destrutiva e a caótica pilotagem política eram mais do que evidentes.

Recente reportagem de Leandra Peres no jornal “Valor Econômico” descreveu em detalhes, por meio de depoimentos, a ruinosa política fiscal conduzida por Arno Augustin na Secretaria do Tesouro, executando formulação da presidente, com quem nutria perfeita identidade ideológica.

Os erros se avolumaram com a vitória em 2014. Naquele momento, Dilma e seu entorno acreditaram que mandariam no Congresso. Aloizio Mercadante, o guru de então, liderou uma reforma ministerial inócua e uma luta inglória contra Eduardo Cunha. Jamais conseguiram conter as sucessivas rebeliões nem estabelecer um padrão de relacionamento. Um a um, os aliados foram abandonando a presidente. Seu fim é melancólico como ex-presidente da mais poderosa das democracias ocidentais.

O presidente do Brasil, seja ele quem for, controla um Orçamento de R$ 1,4 trilhão; manda em 50% do sistema financeiro nacional; nomeia mais de 30 mil cargos de confiança; usa e abusa de medidas provisórias; concentra um poder extraordinário; e maneja um amplo painel de controle. Trata-se de uma equação de primeiro grau – se não for tolo, o presidente do Brasil terá todos os instrumentos nos campos da economia e da política para impor sua vontade e assegurar a governabilidade. Caso contrário, o resultado será mais do que previsível.