Vinte e quatro horas depois da derrota do governo na votação do impeachment, no domingo, 17, o ex-presidente Lula jogou a toalha diante da nova batalha marcada para daqui a dez, doze dias no Senado. Não foi preciso fazer cálculos complicados. Com o rompimento do PMDB, o governo perdeu o apoio de uma poderosa bancada de 18 senadores, número impossível de ser reposto no curto prazo, principalmente em meio a uma guerra de guerrilha como é o impeachment.

Além disso, a Câmara é um universo populoso, que demanda uma exploração paciente, com base em diferentes estratégias de abordagem – corpo a corpo, por meio de bancadas estaduais ou temáticas, a partir de áreas de influência ou grupos de interesse etc. Um operador que perde um voto hoje pode recuperá-lo amanhã, sem que a notícia do fracasso no primeiro bote chegue à mídia, sabotando seus propósitos.

No Senado, o jogo é muito mais duro. A começar pelo número de alvos, seis vezes menor, alta exposição dos protagonistas, fácil visualização do campo de trabalho e possibilidade de alcançar os 81 interlocutores em muito pouco tempo. Ou seja, dada a partida da competição, em questão dias ou horas os possíveis pares estarão comprometidos, como demonstram as pesquisas dos jornais. No dia seguinte à votação da Câmara já foi possível ouvir todos os senadores e informar como a maioria deles vai se comportar na votação da admissibilidade.

Nenhum broker experiente acredita que haverá menos de 41 senadores necessários à aprovação da admissibilidade do processo, principalmente depois da expressiva vitória dos adversários do governo na Câmara com uma folga de 25 votos. Admitida a tramitação no Senado, seria mais tranquilo ainda encontrar os 54 apoios exigidos para que o afastamento provisório da presidente torne-se ato definitivo.

Na quarta-feira, outro elemento agregou mais insegurança ao cenário pessimista captado pelo Planalto. O Supremo Tribunal Federal resolveu transferir o julgamento da legalidade da nomeação do ex-presidente Lula para a Casa Civil para outro dia. A decisão afasta cada vez mais a colaboração que Lula pode dar a Dilma sentado na cadeira de ministro justamente quando os prazos para resgatar a presidente são cada vez mais curtos.

Serão muitos os obstáculos a vencer para que esse roteiro antecipado ganhe um final diferente: a força de Michel Temer no exercício da presidência, o efeito do contraste com uma personalidade afeita o diálogo, a receptividade de véspera já oferecida pelos mercados, a colaboração de operadores políticos de graduação superior e longa experiência no trato com o Congresso e o encanto da lua de mel turbinada pela novidade.

Seria preciso um coeficiente de amadorismo insuperável para falhar na dose do pacote econômico, fracassar na articulação parlamentar, errar no alcance do acordo político imprescindível à nova ordem. Seria preciso repetir os erros de PT, Lula e Dilma somados e multiplicados por dez. Como os cometas, tragédias desse quilate não costumam se repetir com tal frequência.

Atento a esses fundamentos, Temer trabalha com salvaguardas. Tem dito àqueles parlamentares que vão saudá-lo como a nova fonte de poder, que ele precisa daqueles 367 votos não apenas num domingo de abril, com o objetivo de empurrar uma denúncia de uma casa legislativa para outra. Conta com uma base aliada de pelo menos 308 deles permanentemente daqui para a frente, respaldo essencial para aprovar as medidas emergenciais capazes de repor a economia nos eixos e assegurar sua permanência no cargo.