O dicionário Aurélio ensina que líder é “aquele que exerce influência sobre o comportamento, pensamento ou opinião dos outros”. Um deputado líder de bancada, por exemplo, trabalha para dar um norte ao seu partido, moldar uma convicção, principalmente em relação a votações complexas.

Se respeitarmos essa linha de pensamento, cada vez mais o PMDB, partido que tem hoje a iniciativa do jogo político, e seu líder na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), trilham caminhos separados e distintos. Uma posição desconfortável, às vésperas de uma votação tão importante para o destino do país.

O PMBD tem rachaduras internas

Leonardo Picciani (PMDB-RJ)
Leonardo Picciani (PMDB-RJ)

Em seu discurso, na sexta-feira (15), o “líder”, visivelmente constrangido, orientou o voto a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff. No entanto, ele seguirá o caminho dos que pedem o arquivamento da acusação contra ela.

Picciani não fez a defesa do governo, nem o atacou. Ficou em cima do muro, apontando ora erros da oposição e ora de Dilma. O deputado relembrou a necessidade de se reconstruir o futuro, independente do resultado de domingo, e pediu serenidade a todos os envolvidos.

Único deputado do PMDB contrário ao processo de impedimento a falar ontem no plenário, Picciani dividiu o tempo de púlpito com Lelo Coimbra (ES), Osmar Serraglio (PR), Manoel Junior (PB) e Soraya Santos (RJ).

Coimbra afirmou que existe uma óbvia incapacidade da presidente Dilma continuar no poder, e observou que a sociedade sofreu um golpe e foi enganada durante a campanha de 2014. O deputado afirmou que o país passa por um período turbulento, que atinge especialmente os mais pobres, com perda de renda, e afeta a todos com uma grave onda de desemprego.

Serraglio tratou de lembrar que a voz das ruas pede a saída do PT, enquanto Soraya Santos, em tom messiânico, chamou o vice-presidente Michel Temer de “farol e esperança”. Manoel Junior, de maneira mais técnica, desfiou os problemas e as acusações envolvendo a responsabilidade fiscal.

O posicionamento de Picciani é semelhante ao de Celso Pansera (ex e futuro) Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, também filiado ao PMDB, que volta ao seu cargo de deputado para votar pelo arquivamento da matéria.
Além de Pansera, retomam suas vagas de deputado os ministros Mauro Lopes, da Aviação Civil, e Marcelo Castro, da Saúde. Todos contrários ao processo de impedimento de Dilma.

Como resultado das manifestações e do jogo pressões e contrapressões que se seguiu, o PMDB, maior partido do país em número de filiados, está na reta final para assumir o cargo de maior expressão na República. Mesmo assim, demonstra nítidas diferenças e rachaduras internas. Uma situação complicada, mas capaz de ser resolvida até a possível mudança no Executivo. Brigas sérias em geral não prosperam às vésperas de assumir o poder.