Há duas semanas, criou-se a sensação de que o ex-presidente Lula havia revertido o impeachment, assunto que caminharia para longe da tensa agenda legislativa. O sentimento era corroborado por decisões do Supremo Tribunal Federal que soavam ao governo como uma nova tendência a dominar as decisões jurídicas dali por diante.

Lula chegou a comemorar tal desempenho em sua ação de coordenador político informal, instalado em um apartamento de hotel onde se reúne com deputados. Disse a eles que o STF decidiria sua posse na última quinta-feira. E dava como certo assumir o cargo de ministro da Casa Civil em meio a um “happening” bolivariano, prática comum nos tempos atuais no Planalto. Em consequência, o governo iniciou a semana cheio de moral.

No entanto, o plano de defesa da presidente exagerou no discurso sobre articulações destinadas a afastá-la em desrespeito à Constituição. Cumprindo esse figurino, Dilma fez um par de manifestações inadequadas, como sempre. Esbanjou arrogância, atacou as instituições. Reforçou a narrativa de derrotada quando se referia repetidamente, em qualquer evento do qual participava, que estava sendo vítima de um golpe.

O parecer do deputado Jovair Arantes, relator da Comissão do Impeachment na Câmara, mostrou-se consistente e sóbrio, com argumentos que dão substância ao pedido, o que resultou numa péssima notícia para a presidente e sua lógica de injustiçada.

Um revés ainda maior alvejou o governo. Novo parecer do procurador geral Rodrigo Janot sobre a posse de Lula na Casa Civil abriu uma perigosa janela para Dilma. Ela pode ser processada pelo Supremo por tentativa de obstrução da Justiça com base nos procedimentos relativos à nomeação do ex-presidente como ministro da Casa Civil.

Fechando a série negativa, veio a esperada delação da empreiteira Andrade Gutierrez, que causa dano ao governo, ao PSDB e à chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral. Porém, quem está exposto na janela, no momento, é o governo. Assim, seu prejuízo é imediato, em tempo quase real num mundo em que as pessoas são informadas pela internet.

Vivemos um momento de intensa volatilidade política, recortado pelas ameaças das investigações sobre corrupção. O mercado quer Dilma fora do governo o mais rápido possível. Os empresários, também. A Ordem dos Advogados do Brasil, idem. Cerca de 60% dos deputados apoiam a saúde, respaldados pela opinião pública. Em pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha nos dias 7 e 8 de abril, 61% querem Dilma Rousseff fora do Planalto.

Assim, quando o vento muda contra o governo, a Bolsa sobe, e o câmbio cai. Quando o governo flexiona seus músculos, o inverso acontece. Até a votação do impeachment no plenário da Câmara, no próximo fim de semana, os ventos vão mudar muitas vezes de direção, embora as perdas estejam mais concentradas no lado governista.

Em um de seus pronunciamentos, Dilma avisou que novos vazamentos vão ocorrer. Estava preparando terreno para novas más notícias e tentando reduzir suas consequências.

Porém, a presidente não tratou de uma questão delicada, a expectativa de que novas prisões resultantes da Lava Jato possam ocorrer. Inclusive de ex-ministros da era Lula-Dilma. O que seria trágico para a defesa do impeachment.

A cada dia que passa, o governo se torna mais histriônico e menos sereno e consistente em sua defesa. Portanto, o quadro de 60% pró-impeachment na Câmara parece adequado para o momento.