Desde a proclamação da Independência em 1822, a política brasileira se faz por intermédio de grandes acordos. D. Pedro I decidiu se separar da matriz quando as cortes portuguesas resolveram reconverter o Brasil à situação de colônia, extinguir a justiça e proibir qualquer tipo de comércio com outros países. Além disso, determinou que o Imperador retornasse a Lisboa. Ele recebeu a notícia junto ao rio Ipiranga, São Paulo. E ali proferiu o grito independência ou morte.

O processo de independência foi lento e difícil. Tropas portuguesas resistiram na Bahia. E ali foram derrotadas no famoso dois de julho. Depois, a marinha brasileira ameaçou bombardear Belém, em agosto também de 1823. Os paraenses se renderam e a Amazônia passou fazer parte do território nacional. As escaramuças terminaram em acordo. Os brasileiros concordaram em pagar a despesas da corte real no Rio de Janeiro e diversas outras contas. Portugal cedeu entre outros bens a Biblioteca Nacional.

A proclamação da República também ocorreu por acordo. Os grandes proprietários rurais não queriam o fim da escravidão. D. Pedro II a desejava. Quando estava no exterior deixou para sua filha, Princesa Isabel, a tarefa de assinar a lei áurea, em 1888. Os escravos fora libertados, não foram alfabetizados, os patrões não receberam um tostão. E os oficiais do Exército que não gostavam muito do Império aderiram aos positivistas e proclamaram a República em 1889. O primeiro presidente da República foi militar. Seu sucessor também.

Os acordos fazem parte da tradição nacional

Os tenentes de 1922 se transformaram em aliados de Getúlio Vargas na revolução de trinta. Depois patrocinaram a redemocratização pós-guerra. Os militares vencidos pelos golpes dos anos cinquenta se reuniram contra João Goulart, um mau político, que terminou deposto em 1964. Foi a ruptura. Antes, a adoção do parlamentarismo havia sido a tentativa de acordo.

A presidente Dilma Rousseff já deu sinais de que renunciou às suas funções. Convocou o ex-presidente Lula para assumir o comando do governo. As passeatas oficiais defendem mais ele que ela. Passou a ser figura de segunda linha. Sua defesa na comissão de impeachment foi espantosamente fraca. E não é razoável insistir no argumento de que há um golpe em marcha. Na comissão do impeachment, constituída na Câmara dos Deputados, há deputados de todas as legendas. E oito deles pertencem ao Partido dos Trabalhadores. Foi perante esta comissão que o ministro José Eduardo Cardoso fez sua defesa cheia de palavras de efeito e adjetivos retóricos. Se há golpe, o PT faz parte dele.

As tropas estão se colocando frente a frente no plenário. O relator Jovair Arantes (PTB-GO) leu com esforço pessoal suas mais de cem páginas e concluiu pela admissibilidade do processo de impeachment. A matéria agora vai para o plenário da Câmara onde a oposição precisa ter 342 votos (segundo pesquisas possui 261 fechados e definidos). O governo necessita reunir 172 votos e neste momento conta com 110. Tudo muda na política e as votações não resultam da matemática simples. Se a massa entender que o navio está afundando a maioria muda de lugar com espantosa facilidade.

O governo federal abriu, sem pudor, o balcão de negócios. Entregou, por exemplo, sem hesitar a Caixa Econômica Federal ao Partido Progressista – PP – famoso por frequentar as listas de indiciados na Operação Lava-Jato. O PMDB pode prometer o futuro e demonstrar a seus correligionários que os próximos tempos serão melhores que os atuais. Crescimento, emprego, desenvolvimento e inflação baixa. É o que o povo quer, segundo as pesquisas de opinião. Entre as duas propostas balança o coração e o bolso do parlamentar.

Essa história não vai aparecer nas manchetes dos jornais. Será negociada dia e noite em conversas sussurradas em Brasília e várias capitais do país. A negociação, precedida de ameaças é comportamento padrão do político brasileiro. Existe um oceano de oportunidades. O Brasil é uma potência superior a Itália, Inglaterra, em condições de disputar com a França. E há muito capital estrangeiro investido aqui. Os cenários são três: Dilma vence o impeachment, muda completamente seu governo, mas a recessão se aprofunda. Ela terá que enfrentar o julgamento no TSE; Dilma perde e a situação econômica melhora em relação a atual. Por último, não há nenhum acordo e o país mergulha na radicalização política e no desastre econômico, estilo venezuelano.

Há, portanto, muito a ser negociado nos próximos dias.