A retirada é o momento mais crítico de toda operação militar. Não pode ser rápida para não parecer fuga, nem tão lenta que sugira provocação. É necessário recuar gradualmente as forças e continuar atirando para dar ao inimigo a ideia de que o adversário não está completamente vencido. Napoleão chegou a Moscou. Mas sua retirada foi um desastre. Perdeu quando recuava. Hitler chegou às portas de Moscou, no entanto, perdeu em Stalingrado e não conseguiu controlar a maré montante do exército vermelho que reagiu com velocidade impressionante.

As forças armadas norte-americanas viveram situação semelhante no Vietnã. De repente, os soldados inimigos entraram em Hanói, hoje cidade Ho Chi Min, e o último bastião foi a Embaixada dos Estados Unidos. São famosas as fotos de funcionários, amigos, correligionários nas filas para embarcar nos helicópteros que os levariam a um porto seguro. Difícil recuar. E mais ainda entender que passou o momento da virada. Ou seja, a controvérsia alcança seu inexorável fim.

A presidente Dilma Rousseff apresenta uma série de movimentos recentes que serão estudados por historiadores e especialistas no futuro. Desde o início do ano, ela abdicou de governar. Deixou de fazer planos, mencionar objetivos e se fixou na obsessão de conservar seu mandato por intermédio de palavras de ordem proferidas diante de militância paga, que repete monocordicamente tudo o que lhe dizem para gritar. Deve fazer bem ao ego da presidente e lhe conceder falsa sensação de segurança. Entre as paredes do Palácio, com público amigo, tudo fica mais fácil. Ninguém enxerga o perigo.

Outra característica interessante é que a presidente discute o processo de impeachment, ou impedimento. Ela agora admite que o processo é legítimo, mas não assume a responsabilidade pelos crimes que lhe são imputados. É a lógica do réu. Alegar inocência. De novo, ela abre mão das enormes prerrogativas de presidente da República que deve pairar sereno sobre as maledicências dos mortais. Chefe de governo não fica irritado, não demonstra sentimentos pessoais, navega acima de tudo e de todos. E trabalhar para que a economia volte a funcionar de acordo com as expectativas.

A presidente desceu à vala comum dos mortais. Promove uma terceira fase do programa Minha Casa, Minha Vida para o qual não há dinheiro suficiente. Mas isso é apenas detalhe. Na véspera da lançar o plano, ela reuniu um bom número de ministros e a presidente da Caixa Econômica Federal para analisar, julgar e aprovar, ou não, um site deste projeto de casa popular. Um simples site tomou tempo de metade da República. São sinais de que a retirada está em curso. Não há comando. Tudo é compartilhado. Receio de que alguém seja responsabilizado por mais um desastre político ou midiático.

O ex-presidente Lula manda mensagens para militantes em Brasília. É sempre assim. Final de expediente. Os manifestantes saem do trabalho, ganham algum, recebem camisetas, chapéus e bandeiras e às vezes um sanduíche. Este tipo de manifestação jamais ocorre no final de semana. Um pouco mais de barulho é importante neste momento em que o governo tem dúvidas se vai conseguir obter os 173 votos necessários para arquivar o impeachment na Câmara. As mais recentes tabulações indicavam o máximo de 120 favoráveis.

Lula é, na realidade, a imagem do poder. Na medida em que a presidente concordou em recebê-lo como ministro chefe da casa civil abriu mão de seus poderes. Queria designar um primeiro-ministro. Não o fez porque a manobra foi sustada, liminarmente, pelo Supremo Tribunal Federal. O ex-presidente, contudo, nos bastidores continua a agir para juntar nacos de partidos na tentativa final de defender o Planalto com os místicos 173 votos. O balcão de negócios está aberto, mais escancarado do que nunca.

É difícil imaginar que a presidente Dilma permaneça no governo. Ela não possui nenhuma característica de estadista capaz de conduzir seu povo em momento de dificuldade. Não elabora projetos, não fala a verdade e sequer consegue ter um raciocínio organizado quando discursa para plateias não domesticadas. A gravidade da situação econômica exige ação, perspectiva, trabalho e persistência. Dispensa palavras de ordem vazias e promessas sem qualquer sentido prático. A presidente que começou bem seu primeiro mandato, em algum momento deslumbrou-se e começou a gastar o que não tinha e não podia. Achou que entraria para a história como a mãe dos pobres.

Vai figurar nos livros como a presidente que quebrou as finanças nacionais por vontade própria, capricho e desejo. Quem sabe até por falta de conhecimento específico. Desmanchou a política econômica de seu antecessor, destruiu a enorme credibilidade do Itamaraty dentro e fora do país e se limitou a gritar palavras de ordem para plateias amestradas. Se ela ficar, o Brasil vai sangrar nos próximos dois anos. Se sair, a crise será profunda, porém breve. Existe a perspectiva de em 2017, o país voltar a ser o que já foi. Os dados deverão ser jogados neste mês. A retirada está em curso.