Semana passada completou dois anos do início da Operação Lava-Jato. Mais de R$ 2,9 bilhões foram resgatados e devolvidos à Petrobras. Centenas de pessoas foram convocadas a depor e outro tanto foi condenado a penas que somam no total mais de 900 anos de reclusão. É claro que a vastidão dos trabalhos afetou a governabilidade. A presidente da República e seus correligionários nunca imaginaram que poderiam acordar com um agente da Polícia Federal na sua porta.

Inacreditável esquema de desvio de dinheiro de empresas estatais, Petrobras à frente, foi desvendado. Não se trata de um funcionário corrupto que colocou a mão em alguns dinheiros. Comprovou-se que existe uma organização criminosa que unia empresas privadas a funcionários do governo. Uns permitiam que outros recebessem polpudas somas resultado de rapina nos cofres da empresa. O vulto e a dimensão dos malfeitos espantam. E tudo isso começou a se encaixar depois que os promotores, juízes e policiais federais foram revelando as peças do quebra-cabeça.

Havia a história de que a presidente da República não sabia de nada, embora tenha exercido a função de presidente do Conselho da Petrobras quando boa parte do assalto ocorreu. E ex-presidente Lula também não saberia de nada. Seriam dois injustiçados. Mas as sucessivas delações premiadas – mais de setenta – unidas às escutas telefônicas mostraram que as coisas não correram assim. Na medida em que a operação lava jato foi chegando perto do Palácio do Planalto o nervosismo tomou conta do governo. Primeiro foi o líder no Senado, Delcidio do Amaral, que tentou obstruir a ação da justiça. Foi preso e abriu o jogo. Contou tudo. Aloisio Mercadante tentou o mesmo percurso e também se viu no meio do tiroteio.

O governo ficou paralisado. E o ex-presidente Lula começou a temer por sua prisão, e de seus filhos que são acusados de negociações pouco republicanas. A incrível solução da presidente Dilma foi nomear Lula para a Casa Civil de seu governo. É um golpe. Pretende tirar o personagem da mira do juiz Sergio Moro. Contudo, a divulgação de seus diálogos telefônicos é mortal. Ele acusa, com palavras de baixíssimo calão, o Supremo Tribunal Federal, o STJ, juízes, promotores, empresas privadas e pessoas. Se desejava ser interlocutor privilegiado com as oposições, queimou as pontes do entendimento. A liderança do PMDB não compareceu a posse e demonstrou que a presidente Dilma está cada vez mais isolada.

É difícil encontrar paralelo, na história do Brasil, para a atuação da presidente Dilma Rousseff. Ela desconhece regras mínimas de convivência com os contrários, não respeita acordos e pronuncia discursos em que ataca as instituições nacionais, que ela jurou defender. É espantoso. Uma pessoa que não compreende sua posição, não tem visão histórica, nem percebe sua importância na atual crise. A economia nacional desce ladeira abaixo. Ela não propõe nenhum acordo nacional para vencer a crise. Ao contrário, Lula pede ao ministro da Fazenda para conter a fiscalização da Receita Federal nas investigações contra seus filhos.

O governo é, portanto, uma espécie de ação entre amigos Já é conhecida a estranha característica de não fixar metas, não produzir planejamento, nem perseguir resultados. É um desastre de grandes proporções. A comissão do Impeachment foi criada na Câmara vai ficar muito parecida com a votação no Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves. Na época, o voto aberto favoreceu a oposição, porque vários parlamentares não queriam ver seus nomes ligados ao antigo regime limitar. Agora, a situação tende a se repetir. Na época também ocorreram reações dos militares mais duros. Foram vencidos pela realidade.

A crise ganhou uma velocidade impressionante. Os fatos foram digerindo as novidades que passaram a ser cada vez mais curtas. Um jornal carioca foi obrigado, nesta semana, a publicar duas primeiras páginas. Uma só não era suficiente para comportar tantas novidades. As manifestações são cada vez mais fortes. O governador de Brasília, Rodrigo Rollemberg colocou nas ruas todo o efetivo policial do Distrito Federal. Ele teme que ocorra alguma morte no território sob sua jurisdição. Caiu a máscara, o grupo dirigente mostrou sua verdadeira face e prepara-se para a luta nas ruas. Guerra aos opositores.

Essas histórias não terminam bem. Política é conversa, não é pancadaria. Quando alcança este nível, com socos, pontapés e palavrões, é porque todos os outros estágios já foram vencidos. É difícil recompor o tecido político. A presidente Dilma renunciou de fato ao entregar o poder para Lula. Mas, depois da divulgação de seus diálogos, tornou quase impossível conversar com outros grupos. É inescapável a constatação de que o atual governo acabou. A crise subiu a rampa e entrou no Planalto. Tudo indica que o fim está próximo.