A cada semana o impeachment torna-se mais vivo e o governo parece incapaz de reação. A última boa notícia que a presidente Dilma Rousseff anunciou foi no dia 29 de janeiro: a concessão de uma linha de crédito de 83 bilhões de reais destinada aos setores agrícola, exportador e de infraestrutura. Dois anos se passaram e pouco mais de um quinto desse valor foi liberado, transformando bondade em frustração.

Dez dias depois da reunião do Conselhão, quando a medida foi divulgada, a presidente convocou a imprensa e deu uma declaração confusa sobre seu futuro político. Ao negar que fosse renunciar, atrapalhou-se e disse “eu não me renuncio”.

Desde esse ato falho, seu governo derrete com uma característica até aqui ausente das crises políticas clássicas – a velocidade das notícias ruins que se encavalam, às vezes em ritmo horário. Há outro componente perverso: semana sim, semana não a Polícia Federal desperta um grupo grande de suspeitos às 6 horas da manhã com mais uma fase da Operação Lava-Jato.

Se a economia vai mal, o Congresso não dá trégua, a mídia põe pressão, o PT só comete erros, as ruas reclamam e a contribuição de aliados como o ex-presidente Lula serve apenas para aumentar a natureza do infortúnio, é impossível conseguir um refresco. Nem o extraordinário talento político, magnetismo pessoal e envolvente oratória de Barack Obama seriam capazes de inverter a perversa lógica dos 7 a 1, modelo de competição durante o qual quem começa perdendo passa a levar um gol cada 13 minutos.

Ainda assim, é intrigante assistir online a sangria de um personagem parado na linha férrea enquanto o trem se aproxima em alta velocidade. Muitos, como eu, se perguntam se a presidente, carente de tantas coisas, não tem sequer instinto de sobrevivência para tentar qualquer coisa, ainda que já haja certeza de o jogo está perdido. Veja-se o exemplo de Daniel Alves contra o Paraguai.

Há ainda os que não compreendem certos experimentos da presidente ao fazer um movimento numa direção e no final do lance haver percorrido trajetória completamente oposta, como se fosse uma aula prática da Lei de Newton: “A toda ação corresponde uma reação com intensidade igual em sentido contrário”.

A ausência de um cheiro (técnica muita cara ao ministro da Justiça) de sorte também é intrigante. Por exemplo: todo recurso apresentado pelo governo contra os prejuízos que tem levado cai invariavelmente nas mãos do ministro Gilmar Mendes, arquiadversário dos métodos de trabalho do PT.

O mais espantoso de todos, no entanto, foi a delação premiada de uma sócia da agência Pepper Interativa, Daniele Fonteles. Exceto no caso de José Carlos Bumlai, chapa do Lula, a Pepper é um paiol de informações sujeitas a combustão espontânea. Seu slogan deveria ser “eu sei o que vocês fizeram no verão passado”. Foi encarregada das bruxarias que alimentaram a campanha do PT de 2014 na internet.

Ao contrário das demais investigações, nas quais se segue o caminho do dinheiro para descobrir de onde ele veio, aqui o interesse é saber para onde ele foi. Segundo quem conhece a cozinha da internet do “b” nas campanhas políticas, basta fazer as perguntas certas. Poucas.