A publicação dos áudios das conversas de Lula com vários personagens do mundo público, mas também privado, surpreendeu muita gente. E em vários sentidos. Algumas pessoas se surpreenderam com os palavrões, comportamento verbal comum em determinados meios sociais no Brasil. Também ficaram surpresos com a aparente falsidade nas relações sociais, em que uns falam mal dos outros. Igualmente comum na cultura brasileira, e parte intrínseca do mundo político, assim com o machismo. A política é, sobremaneira, um mundo masculino. Aspectos relevantes, mas que exprimem apenas características já conhecidas no ex-presidente Lula. Ele sempre falou assim.

O mais surpreendente, porém, é algo que não parecia intrínseco, no meio petista. Examinemos dois trechos:
Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, nós temos um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um parlamento totalmente acovardado, somente nos últimos tempos é que o PT e o PC do B é que acordaram e começaram a brigar. Nós temos um Presidente da Câmara f….., um presidente do Senado f….., não sei quanto parlamentares ameaçados, e fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre e que vai todo mundo se salvar.

Por que Lula acha que STF está acovardado?

Por que o STF está acovardado, assim com o Parlamento, na expressão do Lula? Estão acovardados em relação a quem? A citação não diz expressamente, mas a resposta é clara. Para Lula estão acovardados em relação a um personagem que ele irá denominar em outra citação: a “República de Curitiba”. E nesta República resplandece um Juiz, aquele que ordenou a sua condução coercitiva. O acovardamento nasce do fato de que estas instituições não estão se opondo ao Juiz Sérgio Moro como o Lula desejaria. Uma petição contra este Juiz, de origem petista, aliás, corre nas redes sociais. Nas entrelinhas de insultos às instituições seu desejo é o de disciplinar a Operação Lava Jato. O que isso significa? Voltar suas luzes para os adversários. Por isto é que em outro momento ele vai reclamar do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, chamando-o de ingrato, porque não acatou as denúncias contra o senador Aécio Neves. E aceitou contra ele. Ingrato porque segundo Lula, Janot deve seu cargo a ele. Como ele irá também reclamar do então subprocurador, hoje ministro da Justiça, Aragão, que não assumia uma posição de defesa dele e do governo.

Mas, sua raiva recai também sobre o presidente do Senado e da Câmara, e “não sei quantos parlamentares”. Raiva porque eles estão ameaçados e não se movimentam para desmontar a Operação Lava jato que vai pegá-los cedo ou tarde, sob a batuta deste juiz “maluco”, como ele diz outra hora. O que se pode concluir é que todos deveriam se unir para desmontar esta operação que a todos ameaça.

Para Lula e seus adeptos o juiz Sergio Moro deveria ser removido. Um juiz com coragem suficiente para colocar na cadeia, julgar e condenar a 19 anos um dos homens mais ricos do País, além de diversos outros executivos das grandes empreiteiras. E contra ele o STF não tem feito nada, ao contrário, tem apoiado todas as suas iniciativas, com rara exceção.

A fala de Lula retrata uma concepção antiga, a de que o Estado é um clube de amigos, no qual os mandatários devem ser protegidos. É dessa forma que se pode enquadrar a conversa que tem com o ministro da Fazenda: “é preciso acompanhar o que a Receita Federal está fazendo junto com a Polícia Federal”. Aliás, o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, foi removido porque não controlava a Polícia Federal, e é nesse sentido que o novo ministro já ameaçou remover toda a equipe da PF “caso haja um só vazamento”, e os jornais já falam em um novo diretor da PF.

Um último trecho revela um outro aspecto.
Lula: “Domingo eu vou ficar um pouco escondido.”
Genival da Silva (Vavá):”Tá certo. É isso aí.”
Lula: “Porque vai ter um monte de peão na porta de casa para bater nos coxinhas.”
Genival da Silva: “É verdade.”
Lula: “Se os coxinhas aparecer vão levar tanta porrada que eles nem sabem o que vai acontecer.”

O trecho traduz uma outra faceta do líder petista, a concepção de que os adversários são inimigos a serem abatidos. Uma concepção pelo menos estranha à democracia. Não é a primeira vez que o Lula chama seus adeptos à guerra. E este risco parece hoje uma das maiores ameaças ao País. Um legado pelo menos estranho de um líder que ergueu tantas esperanças.