Um dos fatores que motivaram a ida do ex-presidente Lula para a equipe ministerial foi a necessidade de melhorar o relacionamento do Palácio do Planalto com o PMDB, principal partido da base aliada. Essa missão é vista como fundamental para barrar o processo do impeachment no Congresso, devolver governabilidade à presidente Dilma e abrir caminho a propostas de ajuste fiscal mais ousadas, como a reforma da Previdência.

Enquanto essa arriscada operação política era empacotada com atraso considerável pelo Planalto, a legenda do vice Michel Temer acelerava suas providências para descolar-se de uma presidente com quem ninguém quer compartilhar o palanque eleitoral deste ano nos municípios. Dois movimentos antagônicos, embora ambos compartilhem a mesma habitação política.

Na semana passada, lideranças do PMDB alertaram o ex-presidente Lula e o então ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, de que tudo poderia acontecer nestes dias na convivência tumultuada com o PMDB, menos a nomeação do deputado Mauro Lopes para a Secretaria de Aviação Civil, pois isso seria considerado um sinal de afronta. Convenção do partido realizada no último dia 12 resolveu proibir qualquer quadro de aceitar cargo no Executivo federal nos 30 dias seguintes, até que a decisão sobre continuar na base fosse avaliada pela executiva nacional.

A presidente Dilma Rousseff ignorou a orientação e causou grande irritação em seu maior aliado, principalmente junto às bases pintadas para a guerra que será o pleito para prefeito e vereador em outubro. Resultado: Temer não compareceu à posse de Lopes, Lula (Casa Civil) e Eugênio Aragão (Justiça); o ex-presidente não conseguiu marcar uma conversa do tipo DR com o vice, e a reunião da executiva para decidir se o PMDB sai do governo foi antecipada de abril para 29 de março.
O relacionamento entre governo e PMDB, que já não estava bom antes da nomeação de Lopes, ficou ainda pior. Antes mesmo da nomeação dele para a SAC, segundo fontes do PMDB, 90% dos integrantes da executiva defendiam o rompimento.

O partido já havia recebido com cautela a nomeação de Lula para o ministério. A iniciativa foi vista como sinal de desespero e de acúmulo de poder nas mãos do PT em detrimento do PMDB, que nem sequer foi consultado. Em seguida, veio a divulgação do catastrófico grampo de Lula conversando com Dilma sobre suposta fuga da jurisdição que investiga o ex-presidente. Diante disso, há três cenários possíveis para a decisão do PMDB no fim do mês:

  1. Declarar independência e considerar que os ministros do partido passam a integrar a cota pessoal da presidente, sem o respaldo das bancadas da Câmara e do Senado.
  2. Declarar o rompimento e definir um prazo de 15 a 30 dias para que os que ocupam cargos no governo peçam demissão, de forma a dar tempo para que cada um se adapte a um novo horizonte político.
  3. Permanecer no governo, mantendo os cargos que ocupa, mas lavando as mãos nas votações mais radicalizadas, o que se tornou rotina na pauta legislativa.

Hoje, o primeiro cenário é o mais provável. A decisão do partido poderá influenciar o comportamento de outras legendas e dificultar a vida do governo em sua batalha contra o impeachment. O PRB já deixou a base aliada. Teme-se que o PSD e o PR sigam o exemplo, num momento de grande vulnerabilidade para a presidente e o PT, com a Comissão do Impeachment nos calcanhares de Dilma e as ruas reverberando slogans destinados a tirar o PT do Planalto já.