A presidente Dilma Rousseff apostou o futuro político do governo na reeleição do deputado Leonardo Picciani (RJ) como líder da bancada peemedebista na Câmara. Faturou a eleição, perdeu a aposta. No embate de ontem, o que ocorreu, na verdade, foi muito mais uma vitória pessoal da presidente contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), fiador do candidato derrotado, o paraibano Hugo Motta.

Com Picciani reconduzido, Dilma acredita no sepultamento do impeachment. Era acordo entre o fluminense e a petista: o Palácio do Planalto investiu em Picciani em troca do controle da comissão especial que discutirá o afastamento da presidente.

Fez parte desse acerto, ao contrário do que disse Dilma, a licença de um dia do ministro da Saúde, Marcelo Castro, para retornar à Câmara e votar no candidato do governo. Aliás, a manobra foi articulada pelo ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, e gerou um transtorno que o Planalto não previu. Com a ida e volta de Castro à Câmara, Dilma declarou na prática à sociedade que dá mais atenção ao enfrentamento do impeachment do que à guerra contra a “mosquita”. Picciani contemporizou: “A estrutura do ministério (assessores trabalhando) permaneceu”, diz.

Por que a eleição de Picciani é ruim para o governo?

Capitaneada por Eduardo Cunha, a ala derrotada – maior do que muitas bancadas aliadas do governo – não abraçará as propostas econômicas enviadas pelo Planalto. Em ano eleitoral, os deputados não estão dispostos a aprovar o retorno da famigerada CPMF e a reforma da Previdência, abandonada pelo PT, partido de Dilma. No ajuste econômico, enquanto petistas se escondiam nos gabinetes, os peemedebistas compareciam em peso no plenário em defesa do governo.

Principal articulador da campanha de Motta, o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) anuncia um período sem trégua. “O governo perdeu metade da bancada”, avisa. Nas palavras do presidente nacional do Solidariedade, deputado Paulinho da Força (SP), Cunha “quer (e vai) colocar fogo no governo”.

Apesar de os dissidentes haverem acenado para Dilma, ela não confiou neles, mesmo com a declaração pública de Eduardo Cunha de que Hugo Motta representava a bancada, não seus interesses pessoais. Dilma desbancou o presidente da Câmara, que se vangloriava de não perder eleição. O resultado da votação é que a presidente pode até ter conseguido fortalecer-se para combater o impeachment, mas se arrisca a perder as rédeas do governo.

Berzoini assume articulação do governo

O ministro Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) vem sendo decisivo nas articulações da Câmara Federal. Um dia antes da eleição para líder da bancada peemedebista, Berzoini se encontrou com o ex-presidente da República José Sarney, convencendo-o da necessidade da recondução do deputado Leonardo Picciani (RJ). Picciani venceu, derrotando Hugo Motta (PB), o candidato apoiado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Na eleição da bancada do Partido Progressista (PP), Berzoini entrou em campo, outra vez. Quando a derrota governista era declarada, Berzoini disparou ligações, convencendo o presidente nacional do partido, o senador Ciro Nogueira, que a eleição de Esperidião Amin (ES) era derrota do governo. Amin abriu mão da vaga, após ligação de Ciro. A eleição foi remarcada para a próxima semana, com cenário indefinido.

Considerado abaixo do ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, Berzoini mostra suas credenciais à presidente Dilma Rousseff. Foi decisivo para salvar a petista, numa semana que era considerada perdida no Palácio do Planalto.