O presidente boliviano Evo Morales acaba de completar 10 anos no poder e busca uma reforma constitucional que torne a reeleição ilimitada. Apesar da alternância no poder ser algo absolutamente saudável para qualquer país, Morales acredita que apenas ele encarna o líder político capaz de transformar a realidade econômica, política e social boliviana. Tem a seu favor um passado de governos ditatoriais e corruptos e um país rico em recursos naturais.

Eleito na onda que deu às esquerdas latino-americanas acesso ao poder, um dos primeiros gestos de Evo Morales foi invadir com as Forças Armadas uma refinaria da Petrobras como forma de reaver o direito boliviano de administrar e gerir sua riqueza. Algo nobre não fosse a forma como as coisas se deram. Invadir com tropas uma propriedade privada estrangeira antes que uma lei de nacionalização tivesse sido aprovada, constitui ato de guerra.

Mas o líder cocaleiro sabia o que estava fazendo e auxiliado por membros da esquerda brasileira – em tese, defensores da Petrobras como patrimônio nacional – Morales colocou o Brasil de joelhos e obrigou o vizinho a negociar novas condições para obter o gás natural aí produzido.

Não que o Brasil devesse invadir a Bolívia e retomar a força a refinaria, mas o presidente da Bolívia deveria ter sido desencorajado em seu ímpeto bolivariano, afinal de contas quem presidia o Brasil era seu companheiro Lula da Silva. Ele preferiu espetacularizar para mostrar ao mundo que a Bolívia, um país pequeno e pobre, era capaz de desafiar o gigante sul-americano. E o fez com a conivência de Brasília e orientação de vários daqueles que ainda estão no poder.

Hoje, a Bolívia busca converter-se no centro energético regional com um investimento de US$ 12 bilhões. Quer produzir gás natural e GLP para exportar. O Brasil que tem reservas de gás na Bacia de Santos prefere seguir dependendo de La Paz quando poderia investir num setor crítico, estratégico.

Uso político do gás por Morales

Amanhã, se Evo Morales decidir fechar a torneira do gás, toda a indústria do Sul-Sudeste fecha as portas. Essa dependência faz com que ele imponha as condições para os acordos, incluindo o novo que valerá por pelo menos 20 anos a partir de 2020. O atual termina em 2019.

O presidente da Bolívia elegeu Brasil e Chile para embates que geram tensões oportunistas.
Ainda no campo político, o presidente da Bolívia quer entrar para a história como o líder que restaurou o território nacional recuperando o acesso ao litoral, perdido na Guerra do Pacífico (1879 a 1883). Uma demanda marítima tramita na Corte Internacional de Justiça, de Haia.

No ano passado, a CIJ reconheceu sua jurisdição para tratar o tema. Foi o suficiente para que La Paz iniciasse uma campanha de demonização do país vizinho. Suas autoridades insistem em afirmar que o Chile está isolado politicamente, que perdeu em Haia e que nenhum país o apóia, até porque, trata-se de um tema bilateral, mas que pode ganhar proporções perigosas se os mecanismos de concertação política regional não intervirem.

É importante ressaltar que a decisão da Corte Internacional de Justiça foi apenas a de reconhecer sua jurisdição para tratar da disputa. Tampouco a Bolívia obteve qualquer vitória concreta. O mérito da questão sequer começou a ser tratado.

Também o argumento boliviano de que até mesmo o Papa Francisco, no ano passado, teria apoiado La Paz, não guarda relação com os fatos. Chega a ser leviano. O Pontífice apenas pronunciou-se a favor do diálogo entre os dois países, algo que a maioria das nações da região já o fez. Algo que a Argentina busca com o Reino Unido por conta das Ilhas Malvinas e que Cuba buscou por décadas com os Estados Unidos.

Na Europa, Evo Morales ouviu a mesma mensagem de líderes como Angela Merkel, mas não houve nenhuma liderança que tenha hipotecado apoio à pretensão boliviana de recuperar o acesso ao mar. Numa guerra, há vencedores e perdedores e, mais importante, há documentos firmados que formalizam a paz.

Em 1884, a Bolívia assinou uma trégua que deu total controle da costa pacífica ao Chile.O Tratado de Paz de 1904 tornou este acordo permanente, embora a Bolívia siga tentando reverter o processo.

Os embates com o Brasil e com o Chile mostram uma Bolívia incoerente, embora até mesmo isso faça parte do jogo político e diplomático. Relevante mesmo é ver até onde essa situação manterá a América do Sul como zona de paz e conflitos.