Em julho de 1911, o Kaiser Guilherme enviou navio de guerra para um porto de na costa atlântica do Marrocos. Seu objetivo era conter a influência francesa na região além de criar uma posição alemã. O Panther era apenas uma canhoneira e Agadir cidade portuária de pouca importância. Mas os ingleses encararam o episódio como mais um passo do fortalecimento da máquina bélica germânica.

Winston Churchill, primeiro lorde do Almirantado, decidiu preparar militarmente a Grã Bretanha para o dia do inevitável ajuste de contas. Determinou a conversão dos navios da Marinha inglesa para consumir petróleo e não mais carvão. A partir daí o petróleo passou a ser o combustível mais importante e valioso do planeta. Os estrategistas de Londres entenderam que precisavam manter abertos seus acessos às fontes. Construíram uma gigantesca refinaria na Pérsia, hoje Irã, onde criaram uma empresa petrolífera com recursos do tesouro real, posteriormente nacionalizada.

Em 1990, Saddam Hussein mandou suas tropas invadir o Kuwait. Se o golpe desse certo, ele se tornaria a maior potência petrolífera do mundo. Não por acaso, as tropas iraquianas enfrentaram e foram derrotadas por uma poderosa coalizão de forças de países ocidentais e árabes. Os exércitos ficaram aquartelados no território da Arábia Saudita.

A história do petróleo se confunde com a história do capitalismo e do comércio. Construiu fronteiras, fez e desfez países, sustentou governos, liquidou expectativas e produziu ilusões. A Venezuela, que detém as maiores reservas deste minério em todo o mundo, é um país que resulta dos acordos entre as petroleiras norte-americanas e grupos civis locais para controlar o poder. A democracia ocorreu lá por curtos períodos. O país é inteiramente dependente do que extrai. Não produz nada. Importa tudo. Sustentou as teorias alucinadas de Hugo Chaves enquanto o preço compensava. Agora, com o preço do barril abaixo dos trinta dólares o país está falido, quebrado e sem horizonte. Maduro não deve durar muito.

O petróleo desenhou fronteiras no oriente médio. Determinou guerras. Hitler invadiu a União Soviética para tentar chegar ao petróleo do Cáucaso. Os japoneses atacaram os norte-americanos para proteger seu flanco enquanto conquistavam as fontes de petróleo das Índias Orientais. Petróleo também é maldição. Ouro de tolo. Promoveu a economia do México e depois a destruiu. A União Soviética esbanjou recursos numa escala militar insana nos anos setenta. O Brasil não conheceu estes ciclos pelo simples fato de que ao longo das últimas décadas sempre demonstrou não ter petróleo. O governo Geisel impulsionou a Petrobras para fazer pesquisas no mar. A partir daí começaram a ocorrer descobertas impressionantes, até chegar ao pré-sal. O ex-presidente Lula disse que era uma espécie de bilhete premiado. Um presente de Deus. Mas criou uma enorme burocracia em torno da ação. Exigiu participação da Petrobras em todos os blocos. Decidiu pela produção de equipamentos nacionais, mais caros e de menor qualidade. E, por último, fechou os olhos para a roubalheira que aconteceu lá.

Os resultados estão chegando sem qualquer cerimônia. A Petrobras, para dizer pouco, está numa situação muito difícil. Suas ações valem menos de cinco reais. Valor ridículo. A empresa ostenta o maior endividamento entre todas as do setor. Seu valor hoje, é cerca de um terço do que era há quatro anos. E a produção nacional de petróleo continua a variar pouco em torno dos dois milhões de barris. A feroz disputa entre os produtores do shale gas norte-americanos e os executivos de petróleo da Arábia Saudita derrubou os preços do barril em todo o mundo. Os árabes querem quebrar as empresas que refinam óleo do xisto. E efetivamente estão alcançando seu objetivo.

No meio deste tiroteio países emergentes são facilmente atingidos. A Venezuela já foi à lona. E o Brasil que vem de crise em crise sofre agora com o baixíssimo preço do petróleo no mercado internacional e com o elevado preço do dólar do mercado interno. Antes, o governo errou ao segurar o preço da gasolina com objetivo de conter a inflação. Agora, precisa manter o preço do combustível mais elevado no mercado interno que no exterior para tentar refazer o caixa da Petrobras.

Quem não é do ramo acaba por pagar a conta. É o que acontece, neste setor, com os brasileiros. Os países grandes produtores possuem um Ministério do Petróleo, controlado com mão de ferro pelo presidente ou ditador. É uma linha direta. Ninguém assalta aquele cofre. Não acontece a avacalhação verificada na Petrobras. Dinheiro jogado pela janela em manobras de operadores preocupados apenas em saquear a instituição. Afinal, o petróleo não era nosso, era deles.