Uma decisão inédita de manifestar-se às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) lançou o Banco Central às feras do mercado financeiro.

Tradicionalmente, na semana que antecede e na que sucede a reunião em que os diretores e o presidente da autoridade monetária decidem o custo do dinheiro no país, medido pela taxa básica de juros, a Selic, ninguém é autorizado a dizer qualquer coisa que seja sobre economia. Muito menos a tecer comentários sobre estimativas para o futuro do país, como fez o presidente do BC, Alexandre Tombini, nesta terça-feira, quando considerou “significativas” as revisões das projeções de crescimento para o Brasil em 2016 e 2017, realizadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em seu “World Economic Outlook”, o fundo traça um quadro sombrio para o país: este ano, a economia afundaria 3,5%, ante uma previsão anterior de queda de apenas 1%. Isso a despeito da troca no comando do ministério da Fazenda, da esperada melhora no cenário político e da promessa da política fiscal entregar um primário que pelo menos não repita os fiascos de 2014 e de 2015, quando o esforço do setor público se resumiu a inéditos déficits primários.

Para 2017, a previsão do FMI é que o Brasil, após encolher por dois anos consecutivos e de enfrentar a maior recessão em três décadas, conseguiria, no máximo, ficar no zero a zero. Ou seja: o Produto Interno Bruto (PIB), medido pela soma de riquezas de empresas e famílias, teria crescimento nulo. É um cenário terrível, a julgar que, para 2017, a previsão anterior do fundo era que a economia brasileira fosse crescer 2,3% — ainda um resultado pífio considerando os resultados ruins do triênio 2014-2016.

Daí porque, para o mercado financeiro, a decisão do Banco Central de se posicionar sobre o documento do FMI foi considerada “inaceitável” e “uma barbeiragem”, para dizer o mínimo do que circula pelas mesas de bancos e corretores.

Espécie de regra oculta, porque nunca chegou a constar em documentos oficiais, o chamado período de silêncio vigora desde que o Brasil adotou o regime de metas de inflação, em 1999. Na prática, significa que, em períodos que antecedem grandes decisões do BC, como a realização das reuniões do Copom, a cada 45 dias, ou às vésperas da publicação do relatório trimestral de inflação, as autoridades do BC devem manter total discrição em público, sob risco de influenciar, positiva ou negativamente, os rumos das expectativas no mercado financeiro.

E foi justamente o que o BC quis fazer, ao “ressaltar”, no comentário atribuído ao presidente Alexandre Tombini, “que todas as informações econômicas relevantes e disponíveis até a reunião do Copom são consideradas nas decisões do colegiado”.

Para o observador atento, o recado não poderia ser mais claro: num cenário de queda forte da atividade econômica, quem apostar na alta dos juros em ritmo forte quebrará a cara. Ou, melhor, perderá dinheiro. Não por outro motivo, imediatamente após a divulgação do comunicado, as expectativas para os juros futuros, medidos por contratos financeiros negociados na bolsa, os chamados DIs, deixaram de embutir uma expectativa de alta mais forte nos juros. Agora, em vez de preverem uma elevação de 0,5 ponto percentual na taxa Selic, os principais negociadores apostam na metade da dose prevista, ou 0,25 ponto. E olhe lá.

Não é questão meramente técnica. Por mais que se duvide da eficácia da atual política monetária, é consenso ao redor do mundo que o mecanismo mais eficaz para derrubar a inflação é subir as taxas de juros. Ainda que amargo, o remédio funcionou em todos os países e economias que o utilizaram, com maior patamar de sucesso ou insucesso, a depender do grau de confiança no governo e da solidez da economia.

Por isso, fica a dúvida: no cenário em que o Brasil se encontra, com inflação crescente e forte retração econômica, a melhor aposta do BC será deixar as coisas como estão, sem tomar qualquer ação para mudar o ritmo da crise?

Em tempo: a inflação oficial, medida pelo IPCA, fechou 2015 com alta de 10,6%. Para este ano a tendência ainda é de alta, com boa parte dos analistas esperando que o Banco Central falhe novamente na tarefa de pelo menos manter os preços abaixo de limite de 6,5%, o teto da meta de inflação. Se os números descolam-se muito desse patamar, dizem os analistas, a situação pode rapidamente fugir do controle, como aconteceu com nações vizinhas, como Argentina e Venezuela, que viram o poder de compra de suas moedas virar pó.

Para encerrar, cito aqui uma declaração da ex-ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, que justificou dessa maneira a decisão de confiscar a poupança dos brasileiros, no primeiro dia de governo de seu primo, o então presidente Fernando Collor de Mello. “Quando assumimos (em 1990), nós estávamos à beira da hiperinflação. Então nós tivemos que escolher entre a hiperinflação, com a destruição total de riqueza, e a reforma monetária, que foi drástica, eu reconheço, que foi difícil, eu reconheço, que trouxe sequelas, eu reconheço, mas que evitou a hiperinflação”.

Será mesmo que o passado não nos ensinou nada?