“Uma hora de contemplação é melhor do que um ano de adoração”

Hugo von Hofmannsthal

O destino do Brasil na terra é decidido todo o dia. Assim, um governante pode até se contentar com suas ideias arcaicas, mas não pode se dar ao luxo de ser imóvel. Reuni quatro casos, ao acaso, sobre nosso destino, sem querer ensinar nada a ninguém. Embora, quem fique com raiva de opinião, geralmente é quem mais precisa dela.
O padrão do nosso voto no sistema das Nações Unidas em relação aos Direitos Humanos e a Democracia. O descaminho da Petrobrás depois do Pré-Sal. A Conferência do Clima em Paris. Os crimes diários na biblioteca de neblinas de links e arquivos da internet.

  1. A ONU, em cuja face não existe nenhum sinal de juventude, despolitizada para os países ricos, ultrapolitizada para os pobres, perdeu seu vigor para se transformar num gigantesco escritório multipolar, com gestão obsoleta e imóvel, fruto das inúmeras investidas contra sua autonomia. De um lado, pelo mal ativo das grandes potências e suas manipulações. De outro, pela anarquia de significados do voto dos emergentes quando não veem problema em contar cabeça de governo que corta cabeça. Interesses legítimos de cidadãos entram em conflito com a natureza obscura do Estado em relação a causa de reformar a ONU. Até “Junta de Eficiência” já houve para enrolar o mundo com os velhos e permanentes “Novos Desafios”, a falácia que hipoteca o futuro dos povos e garante o emprego dos Boinas Azuis. Apesar do Itamaraty ter decidido abandonar o sol nos últimos anos, o padrão do voto brasileiro em relação a direitos humanos e democracia deve continuar o histórico, pois o impacto negativo da sua mudança não revela nenhuma astúcia da razão. Espero que o Instituto Rio Branco volte a entender que não deve haver hierarquia seletiva neste tema – não se trata de programa de ação afirmativa – e que podemos voltar à vanguarda na defesa da liberdade.
  2. É notória a relação entre petróleo e pobreza. É um carvão de poço, cujo uso é sempre vinculado a baixo índice de responsabilidade social, ambiental, saúde e segurança. Sua cadeia produtiva está cada vez mais reduzida ao modelo extrativista exportador de commodities. Não é uma produção no sentido industrial do termo pelo seu arcaico caráter extrativista, mantido por reservas operadas em permanente estado de coleta. Deve ser visto como o que é, relevados os conhecimentos geológicos que possibilita: óleo, reserva, estoque, província petrolífera. Seu recurso talvez seja melhor guardado como reserva estratégica pois, é tão inapropriada sua gestão e consequências humanas assim como é manipulado, politicamente, o preço do seu barril. Agravado pelo fato de que é a gula econômica que faz um combustível fóssil, poluidor, continuar competitivo. Sufocando o ímpeto político inovador que poderia assegurar pesquisa e investimento em fontes alternativas de energia limpa. Nossa maior riqueza continua sendo a população, território, diversidade industrial e a democracia. Basta um olhar sobre o ambiente geopolítico que gira em torno do conflito petrolífero para ver associadas grandes reservas, monopólio, baixa industrialização e tecnologia, nacionalismos retrógrados, monarquias tirânicas e instabilidade institucional permanente. Não depender de Petróleo é meio de se resguardar de economias (países) complicadas e não seguir a sina de ser uma economia complicada. Enfim, é mais relevante para o Estado fiscalizar a atividade, cobrar o imposto necessário do que querer controlar o poço. E fazer a Petrobrás usar sua inteligência para dar um passo à frente e se transformar numa universidade de energia. E não servir à cobiça de quem a identifica como um campo autônomo da moral econômica.
  3. O mais importante encontro mundial sobre mudanças climáticas desde Kyoto enterrou a Conferência japonesa e prometeu abaixar a fumaça do mundo. A Conferencia de Paris afirmou que o homem é o culpado pela ruína ambiental do planeta, apesar da riqueza crescente. É preciso deter sua ação, disseram, mas não sabem como fazer. Conter a poluição, a emissão e a produção suja. Mudar a matriz energética baseada em mais de 70 por cento no combustível fóssil. Dar sentido econômico e comercial à proteção implica em saber que não há um único lugar do Brasil que esteja ambientalmente equilibrado e que não esteja esquentando. Mas o petróleo, com sua lógica barata e suja, domina o mundo e não foi expulso da Conferência de Paris. A disjunção das palavras na política é a disjunção do caráter dos homens.
  4. Sem alternativas culturais relevantes e historicamente influenciado pelo estímulo que o governismo fiel empresta à recusa do trabalho, o Brasil vive o peso da morte imposto pelo sistema on line. E entrega, faceiro e deslumbrado, ao controle político privado, a vida privada. O fervor atual pelos meios eletrônicos, que começa a ser freado pela União Europeia, não se enquadra em nenhuma norma democrática ou razoável. Incapaz de escapar de seu envolvimento, a internet é o ópio do Brasil selvagem, subjugado pela opulência da civilização comercial. Impondo ao país o direito de submetê-lo à pilhagem permanente, limitou os estoques das necessidades culturais aos seus produtos, reduzindo toda a sociedade, inclusive os Poderes da União – hoje os mais deslumbrados com seu uso, ao lado dos grupos de Funk e dos detratores – ao princípio dos que podem tudo frente aos que servem de cobaias. A internet está se tornando um poder político isolado, impulsionado pela sede de devassa de buscadores de alma conturbada e o usufruto velhaco do conceito de publicidade e transparência. Decodifica os ferimentos da alma prisioneira dos seus usuários e os põe em contato, como tropas de um exército clandestino e longínquo.