“Pouca saúva, muita saúva, os males do Brasil são”, a frase do Macunaíma, de Mário de Andrade, personagem síntese do Brasil, continua atual. Poderíamos adaptá-la para “Pouco discurso, muito discurso, os males do Brasil são”, depois que o ministro Jaques Wagner deu uma entrevista admitindo que o PT cometeu os mesmos erros dos demais partidos em sua trajetória no poder.

A frase sugeriu que depois de evitar a verdade durante a campanha eleitoral de 2014 e de ter perdido o ano de 2015, uma oportunidade excepcional para fazer o ajuste fiscal, finalmente o governo sabia o que vai fazer e iria, finalmente, começar a trabalhar.

Que surpresa descobrir Wagner às voltas com outro discurso apenas 24 horas após o mea-culpa, com direito à imagem indiscutível do “quem nunca comeu mel quando come se lambuza”, atribuída à embriaguez com a qual o PT entregou-se às delícias do poder.

O ministro porta-voz da presidente avisou ao Brasil que não se deve esperar que o governo tire nenhum coelho da cartola. Falava agora do mundo real, de prováveis medidas econômicas a serem adotadas pelo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. Sobre elas concentra-se a curiosidade nacional, já que desta vez o conserto da economia tem que levar em conta duas variáveis – manter o ajuste na ordem do dia e buscar uma maneira de reativar as atividades, do contrário não há saída.

Se o Planalto não tem finalmente um pacote para valer, qual no sentido de a todo momento um de seus habitantes vir até o centro do palco fazer um discurso. No café da manhã de quarta-feira, por exemplo, foi a vez da presidente acenar com a reforma da Previdência, medida obviamente contrária aos interesses de seus aliados à esquerda, PT à frente.

A presidente deve saber que não tem base parlamentar suficiente para enfrentar uma “guerra mundial” como essa – aprovar uma emenda constitucional mexendo numa legislação quase pétrea para setores corporativos. Dilma poderá até enviar a proposta ao Congresso, mas isso não passará de um gesto, que ficará perdido no escaninho de alguma comissão. Mais um discurso, mal do Brasil de hoje, como era no século passado.