Quando, em primeiro de setembro de 1992, Barbosa Lima Sobrinho e Marcello Lavenère entregaram o pedido de impeachment do presidente Fernando Collor a Ibsen Pinheiro, presidente da Câmara dos Deputados, um roteiro invisível estava escrito. Diferentemente do que ocorre hoje com a presidente Dilma Rousseff, havia poucas dúvidas sobre a premência de se afastar um mandatário desacreditado por denúncias de corrupção, à frente de uma economia cambaleante.

A incerteza recaía sobre a disposição de dois terços dos deputados em destituir o primeiro presidente eleito diretamente após 21 anos de ditadura militar. Em contrapartida, a CPI do PC, que escarafunchara os malfeitos de Collor, respaldava o ímpeto pela deposição.

A CPI asseverava à nação que o mandatário do confisco da poupança não fora apenas inepto em debelar a inflação, mas partícipe dos delitos. Vejamos, pois, o que diferencia 2015 de 1992:

1) De maneira mais pronunciada do que na atual tentativa de impedimento, Collor isolou-se quase integralmente daqueles que seriam seus julgadores, os partidos políticos. No célebre jantar de 16 de setembro, diante de uma miríade de deputados, o primeiro mandatário achincalhou, numa catilinária inédita para um presidente, os cardeais da política.

Ulysses Guimarães, José Sarney e outros próceres do PMDB foram alcunhados de “esclerosados” e “canalhas”, afora chulos impropérios. O elóquio era o desfecho de uma inábil articulação que levou aquele presidente ao isolamento.

Lembremos que Fernando Henrique Cardoso, em 1997, na reeleição, e Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005, no mensalão, estiveram ameaçados de perder seus mandatos. Sabedores que dependiam do Parlamento para se safar, ambos acorreram aos partidos em busca do armistício. Deu certo.

2) Na seara das cortes superiores outra assimetria. Ao contrário do ativismo jurídico protagonizado pelos atuais magistrados, a justiça pouco intervinha na política. Coube aos deputados que engendraram a CPI o protagonismo do impeachment de Collor.

3) Como se sabe, numa democracia um presidente não tem seu mandato interrompido se não houver uma maioria de cidadãos que assim o queiram. Pois essa vontade foi expressa com clareza pelos cara-pintadas e pela surda pressão que exercem aqueles que privam do convívio dos parlamentares.

Repórter do Jornal do Brasil à época, ouvi praticamente todos os deputados. Não era incomum que, após um fim de semana junto às bases, o parlamentar que antes se dispunha a votar contra o impedimento retornasse a Brasília com um voto cambiante. “É minha mulher, o vizinho, meu apoiador, todo mundo me pede para votar pelo impeachment”, confidenciavam-me, a justificar a reviravolta.

4) Na política profissional, como no jogo de xadrez, o xeque só é anunciado se nosso flanco estiver guarnecido. Itamar Franco, o vice de Collor, resguardou-se para a missão que se avizinhava preservando distância da cena política. Além disso, não havia outros postulantes ao trono, tampouco era o vice alvo de ação judicial. Sem óbices, Itamar estava pronto para assumir o Planalto.

Assim, o imponderável em 1992 resumia-se, grosso modo, aos deputados. Embora o roteiro tivesse sido delineado sem elaborada maquinação, a urdidura correu com desassombro rumo ao desfecho que impediu Collor de completar o mandato.

O script hoje ainda é um rascunho. Dilma Rousseff conta com uma base política e sindical engajada. Os tribunais superiores, STF à frente, esboçam um ativismo político quiçá inédito em nossa República. Os eleitores parecem amortecidos com a desesperança na política após dois escândalos de inéditas proporções – o mensalão e a lava-jato. Depor Dilma, sim; mas e depois?

A completar esse intrincado jogo institucional há o vice Michel Temer – o principal pretendente à sucessão. Comandante da agremiação política mais importante, o PMDB, aventurou-se a participar do jogo cujo principal beneficiário é ele próprio. Além disso, paira sobre o vice a espada de Dâmocles, afiada pelos magistrados do TSE. O roteiro, em 2015, não está escrito.